terça-feira, 31 de março de 2009

Novos Meios

Em Julho de 2007 escrevi um post chamado “Sem Meios Não Há Conquista”, em que falava da falta de infraestruturas que divulgassem e expandissem o Hip Hop Tuga. Exemplos: editoras maiores, estúdios, revistas, lojas, etc. Isto porque, se formos a outros países, isso já acontece, se bem que nalguns só parcialmente. Eu podia dar exemplos de países onde já existe tudo, como a França ou a Inglaterra, ou países onde se caminha para isso, como a Espanha.

Regressando ao presente, tenho estado muito contente porque em pouco tempo se ouviu falar de diversos projectos, incluídos na área dos media, que cumprem o propósito de que a cultura carecia já há algum tempo. Por isso, estava bastante satisfeito por estas boas notícias, e decidi escrever um tópico sobre o assunto. Entretanto, e para ajudar na escrita, reli o tal post “Sem Meios Não Há Conquista”. Olhando para a realidade que apresentava naquela altura, e para a que se apresenta agora, parece-me que não são muito diferentes. OK, talvez esteja a ser um bocado pessimista. A coisa melhorou, mas mais no campo dos festivais e concertos. Este ano, anda a correr bastante bem. É pena é que uma crise (se bem que não me lembro de nenhum ano em que não tivéssemos uma) se tenha metido pelo meio.

No que toca aos media, eu vou-vos ser sincero: eu não tenho TV Cabo, e quem sabe, até pode ser que nesses canais haja uma diferença significativa, mas nos quatro canais normais da caixa mágica não vejo mais projecção e interesse pelo hip hop nacional do que o que havia há pouco menos de dois anos (notem que o que descrevo nesse post já se arrastava por algum tempo).

O que faz com que pareça que agora as coisas estejam melhores, foi que, durante um tempo algures em 2008, nós estávamos praticamente sem nada. Corrijam-me se estiver errado, até porque como já disse, nos últimos dois anos estive um bocado afastado do panorama nacional, principalmente em 2008, mas acho que não havia mesmo nada. O Beatbox acabou, o Nação Hip Hop desfez-se, a Hip Hop Nation já tinha ido à vida muito antes, a IV STREET também acabou, ainda que para fortalecer um outro projecto, que aplaudo, porque basicamente deve ter sido dos que mais ajudou a animar a cena em Portugal, que é o H2Tuga.

Agora de repente aparecem um programa de rádio, o Rimas e Batidas, com o Rui Miguel Abreu (para quem não souber, é o mesmo do Nação Hip Hop) e uma revista, a Freestyle. Já li e ouvi a entrevista no programa de rádio que referi anteriormente, e parece-me que tem pernas para andar. Gosto da cena de variarem os conteúdos, tentando não “oprimir” nenhuma das vertentes da cultura.

Concluindo, o que é que variou? Há mais concertos e festivais, o que é positivo; há mais pessoas a terem projecção mediática, ainda que no geral esta não tenha aumentado.

Este post parece ser negativo na sua maior parte, mas queria com tudo isto deixar uma mensagem positiva: apoiem os projectos que existem. Comprem a revista Freestyle, ouçam os programas de rádio (destaco, para além do Rimas e Batidas na Antena 3, a ressurreição do programa Rapresentar, com novos apresentadores), façam buzz (os links estão todos no Guia de Hip Hop na Internet). E pode ser que, se aumentar a procura, aumente também a oferta, de preferência de qualidade.

sábado, 28 de março de 2009

Polémica - Tupac vs Biggie Smalls

«Biggie, remember when I used to let you sleep on the couch / and beg a bitch to let you sleep in the house»

Tupac - “Hit 'Em Up” in B-Side of How Do U Want It (1996)

Na verdade, este post deveria chamar-se West Coast vs East Coast. Mas para melhor ligá-lo com a fonte que me inspirou para escrevê-lo, deixei-o ficar assim.

Eu já escrevi aqui sobre as primeiras coisas de hip hop que ouvi: Gabriel o Pensador primeiro, Eminem, Dr. Dre e o resto do pessoal. Por causa deste último, sou um bocado suspeito para falar deste assunto. Entretanto, enveredei pelo rap tuga e levou algum tempo até ouvir West Coast de novo. Quando voltei, logo das pessoas que ouvi primeiro foi Tupac. Estão a ver onde quero chegar?

Pausa para falar do filme que me inspirou: Notorious. Há que realçar que o produtor, para fazer este filme, trabalhou com a mãe do rapper Notorious BIG, não percebi se só com ela, mas definitivamente deixou de parte algumas pessoas que talvez tivessem algo a acrescentar à história. Exemplos: Jadakiss e Charli Baltimore. Ah, e a Lil’ Kim não está satisfeita com o modo com o seu papel na história. De qualquer maneira, só queria dizer que a perspectiva pode ser um bocado fechada, ainda para mais vinda de uma pessoa que não participou de maneira muito activa na vida profissional de Christopher Wallace.

Outra coisa que notei foi que não desenvolveram muito (é essa, pelo menos, a minha opinião) o beef entre o Tupac e o Biggie Smalls. Há uma cena que, para mim, não pode ser negada: a vida do Notorious BIG não faz sentido ser contada se não se falar também do Tupac. Isto porque, não que a vida dele se limite ao maior beef da história do Hip Hop, mas porque uma parte significativa da sua participação no rap norte-americano esteve envolvida neste conflito. E mais importante do que o beef, são as consequências dele. West Coast versus East Coast, foi aí que a cena ganhou proporção. Os efeitos negativos desse beef ainda hoje estão bem presentes. Muitos rappers norte-americanos ainda confundem o que é um beef dentro do Hip Hop e um beef na vida real. Pessoas morreram por causa disso.

Pausa para falar mesmo do filme. Dado essa carência no que toca ao beef, eu percebo quais os seus motivos. A hostilidade não morreu, e qualquer cena do filme que pendesse mais para um dos lados poderia desencadear reacções agressivas e quem sabe, um boicote. Por outro lado, como nunca se soube realmente o que aconteceu, optaram por tentar falar o menos sobre isso. Mostrar o Biggie como um gajo porreiro que se meteu num mal-entendido é uma boa maneira de não provocarem estrilho. Mas alguma vez se soube se realmente o BIG não esteve envolvido no assassínio do Tupac? Não. Mais uma vez, como se basearam na perspectiva da mãe, então o Christopher está inocente.

Sem ser isso, acho que o André Silva resumiu bem o filme no Primouz. Concordo quando diz que poderiam ter dado importância a mais alguém para além destas duas estrelas, mas sabendo que é um filme biográfico, nunca dá para tudo, e o mais importante é o protagonista. O filme tem essas lacunas, mas não deixa de ser um filme que vale a pena ver, desde que se tenha sentido crítico.

É estúpido que alguém que não viva nos Estados Unidos falar deste beef como se pertencesse a algum dos “clubes”. Compreendo, embora lamente, que rappers que cresceram neste ambiente lhe dêem continuidade. Certos comportamentos tornam-se heranças.

Finalmente, se for para comparar um com o outro, a minha afinidade com o Tupac, para além do motivo irracional de o ter conhecido a música dele primeiro que a do Notorious BIG, é que sempre achei que as músicas do Tupac eram um bocado mais profundas. Ambas têm conteúdo, são interessantes, e do ponto de vista da construção das letras são muito interessantes, mas o Tupac consegue, na minha opinião, melhor que o Biggie Smalls relacionar a realidade dos ghettos com diversos factores do seu país e até globais. O Biggie Smalls foi um grande rapper, com grande flow e construção de rimas, foi um grande revolucionário, que trouxe algo de inovador e levou a cultura Hip Hop para novos picos. Mas o Tupac foi um filósofo, um homem que revolucionou não só dentro do Hip Hop mas fora dele. Quanto ao beef, restam as músicas que restam sobre isso, sendo que gosta muito de uma do Tupac.

«I'm still the thug that you love to hate»

Tupac - “Hit 'Em Up” in B-Side of How Do U Want It (1996)

terça-feira, 24 de março de 2009

Filmes

Com o aparecimento de um novo filme sobre o Biggie Smalls, intitulado Notorious, decidi fazer um post sobre filmes sobre/relacionados com hip hop. Não vi assim tantos, e até já existe uma grande variedade de filmes.

Para ajudar a escrever este post, andei a fazer umas pesquisas na Net e descobri uma lista da Wikipedia, ainda que com alguns erros (uns quantos que não acho que se incluam nesta categoria).

Para os amantes do graffiti, uma vertente que sei que não percebo muito, há dois filmes essenciais (não vi nenhum deles): Wild Style (1982) e Style Wars (1983). Quando digo que são importantes, não é só pela essência do filme, até porque, mais uma vez, não os vi, mas pela altura em que apareceram e o impacto que criaram. No início dos anos ‘80, a cultura Hip Hop estava a ganhar fama e a encontrar-se com o mainstream, e embora todas as quatro vertentes tenham tido um papel relevante nesta fase, o graffiti é de salientar: era uma fase onde já se encontravam graffitis expostos em galerias de Nova Iorque e havia pessoas que realmente tomavam esta arte de forma séria. Fica aqui um excerto sobre o Wild Style, retirado de um livro que recomendo muito:

«Perhaps the most lasting tribute to the spirit of ‘82 is the movie that Charlie Aheam, Fab 5 Freddy, and Lee Quiñones gathered to talk about in the abandoned massage parlor in Times Square, Wild Style. The movie captured the sense of discovery, the new thing in all its raw, unpolished glory.»

CHANG, Jeff, Can’t Stop, Won’t Stop: A History of Hip Hop Generation, New York, Picador, 2005

Em 1984, surgiram mais dois filmes: Breakin’ (que teve uma sequela no ano seguinte) e o famoso Beat Street, que nos mostra realmente como o Hip Hop nas suas vertentes se estava rapidamente a aliar ao mainstream. Eu não vi o Breakin’, mas vi o Beat Street e recomendo-o. É daqueles filmes que nos inspira, e não só nos dá uma boa perspectiva de como eram as cenas naquele tempo, como também consegue mostrar-nos as quatro vertentes do Hip Hop tal e qual como eram nos anos ‘80: o graffiti a sair da rua para as galerias, o breakdance a ganhar popularidade e o rap a ser cada vez mais cobiçado pela indústria. Contudo, mostra também as dificuldades e o preço a pagar por esta transformação. Mais uma vez, um excerto do mesmo livro.

«Beat Street’s dramatic thrust was fed by the main themes of Wild Style and Style Wars – the competitive drive of the culture’s devotees, the generational, racial and class tensions the culture fuelled, the perilous negotiations between uptown and downtown. The original script had been written by the highly respected Steven Hager, one of the first journalists to cover the rap and graffiti scenes for the New York Daily News and alternative papers like The Village Voice, East Village Eye and the Soho News. Hager made explicit what most other journalists had not, that the sub-cultures of b-boying, rap and graffiti were related.»

CHANG, Jeff, Can’t Stop, Won’t Stop: A History of Hip Hop Generation, New York, Picador, 2005

Surgiram depois mais filmes, como o Rappin’ ou o Krush Groove, ambos de 1985. Todos estes filmes, em conjunto, permitem perceber o quanto o Hip Hop cresceu em tão pouco tempo. Se o Hip Hop saiu do ghetto e começou a “subir a montanha” por volta de 1979, façam lá as contas: passados seis anos temos mais de seis filmes sobre a cultura, muitos deles no mesmo ano. Algo que nem hoje, com uma indústria multimilionária, se verifica. E isto falando de filmes, porque se falarmos de documentários, que também estão na lista da Wikipedia, também saíram bastantes desde há uma ou duas décadas para cá.

Mas voltando aos filmes, entretanto saíram alguns que misturavam uma ou outra das suas vertentes com outro assunto, como misturar o rap com o breakdance. Dois exemplos: Above The Rim (1994), com participação do Tupac, e Sunset Park (1996), em que aparece Fredro Starr (dos Onyx, que, já agora, lançaram um novo álbum em 2008). Também não vi nenhum destes.
Vi sim os que vou dizer a seguir: Save The Last Dance (2001), um filme que mistura o breakdance com outros tipos de dança (não é excelente, mas também não é mau) e Paid In Full (2002). Este último é uma produção da Roc-A-Fella Films (não é preciso dizer o que é), tem a participação do Cam’ron e retrata o impacto que o crack teve nos ghettos de Nova Iorque, especialmente no Harlem em que a história (baseada em factos verídicos) se passa. Não há um relacionamento directo entre este filme e o Hip Hop, mas este acaba por estar sempre como “pano de fundo”. Na verdade, o filme é bastante sobre hustlers e o drug game que decorria na altura (nos anos ‘80).

Ainda em 2002 saiu o State Property e o 8 Mile (parece que foi ontem). Pessoalmente, não acho um grande filme, até porque se centra muito no seu protagonista e faz-me lembrar a hipocrisia do Eminem. Ainda assim, sempre se aprende alguma coisa. Em 2005 apareceu o filme do 50 Cent, Get Rich or Die Tryin’, sobre a vida do rapper norte-americano.

E finalmente, apareceu o Notorious este ano, de que vou falar num próximo post, pois já vi, com uma qualidade de merda, e tem muito por onde se lhe pegue. Se houve algum filme de que não falei e que gostavam de ver aqui, lembrem-me, pois mais vale tarde do que nunca.

domingo, 1 de março de 2009

CR - Thoughts of a Madman

Desde já peço desculpa por estar a postar outro tópico destes, provavelmente já estão saturados, mas o assunto merece um post dedicado a ele.

Escrevi, no post “CR – O Regresso”, que «se me apetecer mesmo pôr um post que não está relacionado com a filosofia do CR (ex: assuntos que não tenham directamente a ver com Hip Hop), posso sempre criar um outro blog ou um anexo.» Bom, decidi fazer isso.

Ainda hesitei, porque queria associar estes textos à imagem do Madman (o meu novo nickname – explicação mais adiante), se não poderia aproveitar o blog do meu Myspace para fazê-lo. Mas não o fiz por duas razões: primeiro, porque não acho muito apelativo o interface daquilo; segundo, porque queria associar estas mensagens alternativas ao Cultura de Resistência. Por isso, decidi-me pelo anexo (que é a solução que eu arranjo para tudo o que eu quero fora do blog principal).

Até porque, se vir-mos bem, este blog chama-se “Cultura de Resistência”, mas não houve mais nenhum post dedicado ao assunto desde talvez o post “Geração TV e outros assuntos…”.
Claro que eu posso sempre defender-me, dizendo que a maioria dos posts têm sempre uma remota ligação com a filosofia. Exemplo: este post anterior sobre o machismo. É preciso ter-se cultura de resistência para se gostar de rap e não se ser influenciado pelo conteúdo machista que abunda nele. Mas nada de muito explícito.

Portanto, decidi criar este anexo, que se chamará “Thoughts of a Madman”. Falarei de assuntos ligados à Política, Filosofia, Cultura, etc. Basicamente, assuntos de que falo nas minhas rimas, assuntos que discuto com o meu pai, assuntos em que penso. Falarei também de coisas ligadas ao meu percurso enquanto… hum… vamos chamar-lhe de “compositor” e, assim o espero, futuro MC. Não sou daqueles que vou para os fóruns e ponho no nickname “MC Qualquercoisa”, mesmo como aquelas bestas que gostam de assinar com o título de Dr. ou Engenheiro. Por isso, será um blog com textos mais pessoais do que os que preenchem o “blog-mãe” do CR, mas não se assustem, não vos vou contar dos meus assaltos a bancos (oh shit, I said it!!!).

Quanto à decisão de usar o nome de “Madman” para este percurso, em vez de utilizar o habitual “estrofe”, com que escrevo o blog e até assino as minhas rimas no caderno, é que este já está muito gasto lol. Já o uso há para aí uns sete ou oito anos (ainda antes de andar a percorrer os fóruns todos). Também gostava de separar um do outro: o nome “estrofe” uso para escrever artigos e outros; o “Madman” é mais ligado à componente de (futuro) MC. A escolha do nome também têm a ver com algumas mudanças na minha maneira de escrever, um novo caminho.

Embora este seja o blog principal, o novo anexo “Thoughts of a Madman” não será menos importante. Devido ao conteúdo dos posts, bastante diferentes das do blog principal, não permitirei comentários. Caso achem que gostavam mesmo de comentar, podem fazê-lo no post mais recente do blog principal (mas expliquem a que post se referem). O primeiro post será publicado nos próximos dias.

Não deixem de checkar o meu Myspace, tem estado um bocado parado, mas ando a trabalhar para pôr coisas minhas lá em breve. O blog de lá será utilizado para informar sobre quaisquer progressos que faça enquanto Madman, como novas músicas, etc.

Outras áreas em que tenho estado a trabalhar é a da ressuscitação do tipo de post “Convidado”, que consiste em convidar alguém de fora para escrever no blog. Quanto ao resto do blá blá subscrevo o que está escrito no post anterior do tipo CR: “CR – Mais do Mesmo”.

Os mais atentos hão-de reparar que este post devia ter sido postado em Fevereiro, mas houve um atraso na construção do novo anexo, o que teve as suas consequências. No entanto, este post é como se pertencesse ao mês anterior, e terão mais três ainda em Março. Comentem e esclareçam!

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

O Machismo no Hip Hop

«Every black man that goes in the studio, he always got two people in his head: him, in terms of who he really is, and the thug, that he feels he has to project.»

Conrad Tillard in documentário “Hip Hop: Beyond Beats and Rhymes” (2006)


Este post é uma espécie de continuação do post “Hip Hop Feminino”. Estamos todos conscientes, e não é preciso ser um hip-hopper viciado para reparar nisso, que a cultura hip hop tem um grande ponto fraco, que é o machismo que a infecta. Na minha opinião, este é um dos seus maiores defeitos.

Este machismo é suportado principalmente pela vertente do rap, reflectindo-se depois no resto da cultura: desde os termos utilizados para se referir às mulheres até às videoclips chics. Não há dúvida aqui: é um mundo maioritariamente de/para homens.

Mas onde começou esta atitude que, à primeira vista, não seria algo que conjugasse tão bem com os princípios de união e paz que tanto se apregoa dentro deste mundo? Há quem diga que começou assim que o hip hop se associou ao mainstream. Mas eu acho que não.

Na minha opinião, e não entendam isto como uma crítica racista, o machismo vem da própria cultura afro-americana e, sendo assim, o machismo não apareceu no hip hop, mas estava lá quando o hip hop americano começou. Claro que não me refiro às festas que o Grandmaster Flash, o Afrika Bambaataa ou o Kool DJ Herc davam, mas acredito que há medida que o rap crescia e a sua forma ficando mais definida, as coisas tornaram-se mais visíveis. O rap, principalmente no início, sempre reflectiu a situação dos imigrantes africanos nos EUA (e os seus descendentes). À medida que o hip hop cresceu, o rap deixou de ser black music, como muitos ainda acreditam que é. Mas o machismo permaneceu. Não é também nenhuma novidade que há uma certa crença em algumas culturas africanas (e árabes) de que a mulher, o “sexo fraco”, é inferior ao homem. Acredito, por isso, que isto foi transportado para o hip hop, sendo mais explícito na vertente musical.

Obviamente, a indústria teve bastante interesse em explorar o estereotipo do rapper machão, num mundo onde não há mulheres, só bitches, criando assim uma série de material que transmite mensagens onde a mulher é inferiorizada, que nem vale a pena estar a exemplificar.

Claro que também não devemos desatar a apontar o dedo de cada vez que um rapper afro-americano diz bitch ou hoe. O que é preciso pensar é: aquilo poderia ser substituído por quê? Se o MC se está a referir às mulheres em geral, então o insulto é machista. Se se está a referir a uma mulher em particular, não tem necessariamente de se interpretar da mesma maneira. Lá por eu dizer que aquela gaja é uma cabra, não significa que sinta o mesmo pelo sexo feminino em geral. É só que às vezes, ela está mesmo a pedir.

Por outro lado, há que ter em conta que estamos a falar de uma cultura do ponto de vista da nossa. Na nossa cultura, ou mais propriamente na norte-americana, bitch é um insulto com grande conotação machista. Ora, às vezes, surgem exemplos de pessoas afro-americanas que usam a mesma palavra mas sem querer exprimir todo o significado que nós tiramos dela. Por exemplo: “I Love My Bitch”, do Busta Rhymes. «Grande contradição», diríamos nós. Como é que palavras como “love” e “bitch” podem estar ligadas no mesmo título? Para tirar conclusões, há que saber não só pensar por nós, mas imaginar como os outros pensam.

«I'm calling my black woman a bitch / I'm calling my peoples all kinds of thing that they're not»

Wu-Tang Clan - “Wu-Revolution” in Wu-Tang Forever (1997)

Um documentário interessante que aborda o assunto: “Hip Hop: Beyond Beats and Rhymes” de Byron Hurt.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

CR - Mais do Mesmo

Dado que o último tópico do CR anunciava o meu regresso, dispensei a treta do costume, que exponho aqui agora.
Podem consultar os anexos do CR:
- Apresentação (do blog)
- Glossário (agradece-se a quem fizer sugestões)
- Guia de Hip Hop na Internet (em actualização constante, com novos sites e blogs, nacionais e estrangeiros, novos videoclips, novos canais de vídeo, músicas para download, etc.)
NOTA: Certos links no Guia estão mortos, ainda não os apaguei porque tenho esperança de que voltem ao activo (ex: HipHopWeb).

Queria pedir a todos que deixassem uma mensagem sobre o CR no factbook, que está abandonado já há dois anos no anexo da Apresentação. A ideia é que aquilo represente o que os leitores pensam do blog. Já sabem: qualquer crítica negativa e vai tudo à navalhada (lol just kiddin’).

Como podem verificar, as outras tretas que tenho aqui para dizer que faço alguma coisa também já estão de volta ao activo, desde a Citação do Mês até ao Canal do CR no YouTube. Há novos concursos para quem estiver interessado (consultar secção “Concursos”, no blog principal, ou seja, este). A playlist foi reorganizada e tem novas músicas (sempre do melhor).

Entretanto, voltei a arregaçar e estou a elaborar uma nova lista de pessoas que gostava que escrevessem um texto para este blog. Esperemos que consiga algumas vitórias.

Quero destacar também a inauguração de uma nova secção de links no Guia de Hip Hop na Internet, chamada “Activismo”. É um grupo de sites que não estão tão relacionados com o Hip Hop de uma maneira directa, mas que tem a ver com a tal doutrina que dá nome ao meu blog (para os distraídos: Cultura de Resistência), e que eu pus um pouco de lado tal era (e é) o meu entusiasmo em falar de assuntos mais ligados à cultura. Vejam os vídeos e mantenham-se informados.

Aqueles que também quiserem estar informados sobre o blog podem fazê-lo subscrevendo a Newsletter do CR. Agora é automática, num desses sites que existe, e tem uma apresentação muito melhor. Subscrevam e três vezes por mês receberão uma e-mail (de cada vez que publico um texto). Se se fartarem, podem sempre cancelar a subscrição no mesmo sítio (na coluna da direita, secção “Serviços”, em baixo).

No entanto, quaisquer sugestões, correcções, pedidos de divulgação (de eventos, grupos, lançamentos) ou outra coisa qualquer que queiram comunicar-me podem fazê-lo para o mesmo endereço: cr_email@sapo.pt.
Irei também pôr, neste primeiros meses, algumas assuntos para votar. Não muitos, para não ser chato (ex: os putos do Fórum da Horizontal hehe), mas apenas para avaliar o que as pessoas pensam do meu blog. Basta dar um click. O espaço para votar aparecerá algures na barra da direita.

Por último, aviso-vos para estarem atentos porque os quatro posts que faltam no mês de Dezembro de 2007 serão colocados muito brevemente (para quem não se lembra, prometi pôr cinco posts nesse mês em vez dos habituais 3 porque faltavam um em Julho e um em Agosto, devido às férias).
Comentem e esclareçam!

PS: No dia 15 de Fevereiro (ou seja, ontem), a Momentum Crew esteve no Museu D. Diogo de Sousa. Quando soube disto à cerca de uma semana estava com a ideia de lá ir, mas entretanto reparei (demasiado tarde) que era preciso inscrever-se, pelo que não fui. De qualquer maneira, é de elogiar este tipo de evento (grátis!). Conheci este grupo de breakdance, ou mais propriamente, b-boying, na última edição do HipHoPorto, em 2008. E gostei. Além disso, esta foi uma oportunidade rara aqui em Braga, porque quanto a mim, já sabem o que eu penso sobre a generalidade dos eventos culturais em Braga: mais vale dar um salto ao Porto. Like water for chocolate.