«Biggie, remember when I used to let you sleep on the couch / and beg a bitch to let you sleep in the house»
Eu já escrevi aqui sobre as primeiras coisas de hip hop que ouvi: Gabriel o Pensador primeiro, Eminem, Dr. Dre e o resto do pessoal. Por causa deste último, sou um bocado suspeito para falar deste assunto. Entretanto, enveredei pelo rap tuga e levou algum tempo até ouvir West Coast de novo. Quando voltei, logo das pessoas que ouvi primeiro foi Tupac. Estão a ver onde quero chegar?
Pausa para falar do filme que me inspirou: Notorious. Há que realçar que o produtor, para fazer este filme, trabalhou com a mãe do rapper Notorious BIG, não percebi se só com ela, mas definitivamente deixou de parte algumas pessoas que talvez tivessem algo a acrescentar à história. Exemplos: Jadakiss e Charli Baltimore. Ah, e a Lil’ Kim não está satisfeita com o modo com o seu papel na história. De qualquer maneira, só queria dizer que a perspectiva pode ser um bocado fechada, ainda para mais vinda de uma pessoa que não participou de maneira muito activa na vida profissional de Christopher Wallace.
Outra coisa que notei foi que não desenvolveram muito (é essa, pelo menos, a minha opinião) o beef entre o Tupac e o Biggie Smalls. Há uma cena que, para mim, não pode ser negada: a vida do Notorious BIG não faz sentido ser contada se não se falar também do Tupac. Isto porque, não que a vida dele se limite ao maior beef da história do Hip Hop, mas porque uma parte significativa da sua participação no rap norte-americano esteve envolvida neste conflito. E mais importante do que o beef, são as consequências dele. West Coast versus East Coast, foi aí que a cena ganhou proporção. Os efeitos negativos desse beef ainda hoje estão bem presentes. Muitos rappers norte-americanos ainda confundem o que é um beef dentro do Hip Hop e um beef na vida real. Pessoas morreram por causa disso.
Pausa para falar mesmo do filme. Dado essa carência no que toca ao beef, eu percebo quais os seus motivos. A hostilidade não morreu, e qualquer cena do filme que pendesse mais para um dos lados poderia desencadear reacções agressivas e quem sabe, um boicote. Por outro lado, como nunca se soube realmente o que aconteceu, optaram por tentar falar o menos sobre isso. Mostrar o Biggie como um gajo porreiro que se meteu num mal-entendido é uma boa maneira de não provocarem estrilho. Mas alguma vez se soube se realmente o BIG não esteve envolvido no assassínio do Tupac? Não. Mais uma vez, como se basearam na perspectiva da mãe, então o Christopher está inocente.
Sem ser isso, acho que o André Silva resumiu bem o filme no Primouz. Concordo quando diz que poderiam ter dado importância a mais alguém para além destas duas estrelas, mas sabendo que é um filme biográfico, nunca dá para tudo, e o mais importante é o protagonista. O filme tem essas lacunas, mas não deixa de ser um filme que vale a pena ver, desde que se tenha sentido crítico.
É estúpido que alguém que não viva nos Estados Unidos falar deste beef como se pertencesse a algum dos “clubes”. Compreendo, embora lamente, que rappers que cresceram neste ambiente lhe dêem continuidade. Certos comportamentos tornam-se heranças.
Finalmente, se for para comparar um com o outro, a minha afinidade com o Tupac, para além do motivo irracional de o ter conhecido a música dele primeiro que a do Notorious BIG, é que sempre achei que as músicas do Tupac eram um bocado mais profundas. Ambas têm conteúdo, são interessantes, e do ponto de vista da construção das letras são muito interessantes, mas o Tupac consegue, na minha opinião, melhor que o Biggie Smalls relacionar a realidade dos ghettos com diversos factores do seu país e até globais. O Biggie Smalls foi um grande rapper, com grande flow e construção de rimas, foi um grande revolucionário, que trouxe algo de inovador e levou a cultura Hip Hop para novos picos. Mas o Tupac foi um filósofo, um homem que revolucionou não só dentro do Hip Hop mas fora dele. Quanto ao beef, restam as músicas que restam sobre isso, sendo que gosta muito de uma do Tupac.
«I'm still the thug that you love to hate»
