terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

O Machismo no Hip Hop

«Every black man that goes in the studio, he always got two people in his head: him, in terms of who he really is, and the thug, that he feels he has to project.»

Conrad Tillard in documentário “Hip Hop: Beyond Beats and Rhymes” (2006)


Este post é uma espécie de continuação do post “Hip Hop Feminino”. Estamos todos conscientes, e não é preciso ser um hip-hopper viciado para reparar nisso, que a cultura hip hop tem um grande ponto fraco, que é o machismo que a infecta. Na minha opinião, este é um dos seus maiores defeitos.

Este machismo é suportado principalmente pela vertente do rap, reflectindo-se depois no resto da cultura: desde os termos utilizados para se referir às mulheres até às videoclips chics. Não há dúvida aqui: é um mundo maioritariamente de/para homens.

Mas onde começou esta atitude que, à primeira vista, não seria algo que conjugasse tão bem com os princípios de união e paz que tanto se apregoa dentro deste mundo? Há quem diga que começou assim que o hip hop se associou ao mainstream. Mas eu acho que não.

Na minha opinião, e não entendam isto como uma crítica racista, o machismo vem da própria cultura afro-americana e, sendo assim, o machismo não apareceu no hip hop, mas estava lá quando o hip hop americano começou. Claro que não me refiro às festas que o Grandmaster Flash, o Afrika Bambaataa ou o Kool DJ Herc davam, mas acredito que há medida que o rap crescia e a sua forma ficando mais definida, as coisas tornaram-se mais visíveis. O rap, principalmente no início, sempre reflectiu a situação dos imigrantes africanos nos EUA (e os seus descendentes). À medida que o hip hop cresceu, o rap deixou de ser black music, como muitos ainda acreditam que é. Mas o machismo permaneceu. Não é também nenhuma novidade que há uma certa crença em algumas culturas africanas (e árabes) de que a mulher, o “sexo fraco”, é inferior ao homem. Acredito, por isso, que isto foi transportado para o hip hop, sendo mais explícito na vertente musical.

Obviamente, a indústria teve bastante interesse em explorar o estereotipo do rapper machão, num mundo onde não há mulheres, só bitches, criando assim uma série de material que transmite mensagens onde a mulher é inferiorizada, que nem vale a pena estar a exemplificar.

Claro que também não devemos desatar a apontar o dedo de cada vez que um rapper afro-americano diz bitch ou hoe. O que é preciso pensar é: aquilo poderia ser substituído por quê? Se o MC se está a referir às mulheres em geral, então o insulto é machista. Se se está a referir a uma mulher em particular, não tem necessariamente de se interpretar da mesma maneira. Lá por eu dizer que aquela gaja é uma cabra, não significa que sinta o mesmo pelo sexo feminino em geral. É só que às vezes, ela está mesmo a pedir.

Por outro lado, há que ter em conta que estamos a falar de uma cultura do ponto de vista da nossa. Na nossa cultura, ou mais propriamente na norte-americana, bitch é um insulto com grande conotação machista. Ora, às vezes, surgem exemplos de pessoas afro-americanas que usam a mesma palavra mas sem querer exprimir todo o significado que nós tiramos dela. Por exemplo: “I Love My Bitch”, do Busta Rhymes. «Grande contradição», diríamos nós. Como é que palavras como “love” e “bitch” podem estar ligadas no mesmo título? Para tirar conclusões, há que saber não só pensar por nós, mas imaginar como os outros pensam.

«I'm calling my black woman a bitch / I'm calling my peoples all kinds of thing that they're not»

Wu-Tang Clan - “Wu-Revolution” in Wu-Tang Forever (1997)

Um documentário interessante que aborda o assunto: “Hip Hop: Beyond Beats and Rhymes” de Byron Hurt.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

CR - Mais do Mesmo

Dado que o último tópico do CR anunciava o meu regresso, dispensei a treta do costume, que exponho aqui agora.
Podem consultar os anexos do CR:
- Apresentação (do blog)
- Glossário (agradece-se a quem fizer sugestões)
- Guia de Hip Hop na Internet (em actualização constante, com novos sites e blogs, nacionais e estrangeiros, novos videoclips, novos canais de vídeo, músicas para download, etc.)
NOTA: Certos links no Guia estão mortos, ainda não os apaguei porque tenho esperança de que voltem ao activo (ex: HipHopWeb).

Queria pedir a todos que deixassem uma mensagem sobre o CR no factbook, que está abandonado já há dois anos no anexo da Apresentação. A ideia é que aquilo represente o que os leitores pensam do blog. Já sabem: qualquer crítica negativa e vai tudo à navalhada (lol just kiddin’).

Como podem verificar, as outras tretas que tenho aqui para dizer que faço alguma coisa também já estão de volta ao activo, desde a Citação do Mês até ao Canal do CR no YouTube. Há novos concursos para quem estiver interessado (consultar secção “Concursos”, no blog principal, ou seja, este). A playlist foi reorganizada e tem novas músicas (sempre do melhor).

Entretanto, voltei a arregaçar e estou a elaborar uma nova lista de pessoas que gostava que escrevessem um texto para este blog. Esperemos que consiga algumas vitórias.

Quero destacar também a inauguração de uma nova secção de links no Guia de Hip Hop na Internet, chamada “Activismo”. É um grupo de sites que não estão tão relacionados com o Hip Hop de uma maneira directa, mas que tem a ver com a tal doutrina que dá nome ao meu blog (para os distraídos: Cultura de Resistência), e que eu pus um pouco de lado tal era (e é) o meu entusiasmo em falar de assuntos mais ligados à cultura. Vejam os vídeos e mantenham-se informados.

Aqueles que também quiserem estar informados sobre o blog podem fazê-lo subscrevendo a Newsletter do CR. Agora é automática, num desses sites que existe, e tem uma apresentação muito melhor. Subscrevam e três vezes por mês receberão uma e-mail (de cada vez que publico um texto). Se se fartarem, podem sempre cancelar a subscrição no mesmo sítio (na coluna da direita, secção “Serviços”, em baixo).

No entanto, quaisquer sugestões, correcções, pedidos de divulgação (de eventos, grupos, lançamentos) ou outra coisa qualquer que queiram comunicar-me podem fazê-lo para o mesmo endereço: cr_email@sapo.pt.
Irei também pôr, neste primeiros meses, algumas assuntos para votar. Não muitos, para não ser chato (ex: os putos do Fórum da Horizontal hehe), mas apenas para avaliar o que as pessoas pensam do meu blog. Basta dar um click. O espaço para votar aparecerá algures na barra da direita.

Por último, aviso-vos para estarem atentos porque os quatro posts que faltam no mês de Dezembro de 2007 serão colocados muito brevemente (para quem não se lembra, prometi pôr cinco posts nesse mês em vez dos habituais 3 porque faltavam um em Julho e um em Agosto, devido às férias).
Comentem e esclareçam!

PS: No dia 15 de Fevereiro (ou seja, ontem), a Momentum Crew esteve no Museu D. Diogo de Sousa. Quando soube disto à cerca de uma semana estava com a ideia de lá ir, mas entretanto reparei (demasiado tarde) que era preciso inscrever-se, pelo que não fui. De qualquer maneira, é de elogiar este tipo de evento (grátis!). Conheci este grupo de breakdance, ou mais propriamente, b-boying, na última edição do HipHoPorto, em 2008. E gostei. Além disso, esta foi uma oportunidade rara aqui em Braga, porque quanto a mim, já sabem o que eu penso sobre a generalidade dos eventos culturais em Braga: mais vale dar um salto ao Porto. Like water for chocolate.

sábado, 31 de janeiro de 2009

Suportar a Fome

Este post tem a ver com os CDs e o MP3, mas não vai ser para cascar em ninguém. Quem quiser saber a minha opinião sobre os downloads e MP3 e os CDs e preços dos mesmo, que clique nos links.

Bom, ao longo dos últimos dois anos a minha filosofia acerca de comprar CDs foi mudando um bocadinho. Se ao início seguia a política do Valete e comprava os mais underground e pedia ao meu irmão para (piii) os dos gajos mais mediáticos (normalmente estrangeiros), como neste últimos dois anos só consumia rap estrangeiro, principalmente americano, comecei a comprar o que gostava e cagava para se o rapper já tinha muito dinheiro ou não.

Mas agora o que me fez escrever este tópico: aquando do regresso do CR neste mês, o meu único acto de publicidade foi ir buscar um tópico que tinha no fórum do CR (felizmente ainda não o tinham apagado) e postar lá a informação. Noutro dia, queria encontrar o tópico, e ver se alguém tinha comentado, por isso fiz uma pesquisa no fórum com o nome do meu blog. Para além do meu tópico, descobri outro que se intitulava “Links importantes [Hip Hop]”. O autor pretendia ali reunir links que dariam jeito a qualquer apaixonado da cultura quando tivesse a navegar na Internet. Alguns já conhecia, outros não (e uns “saltaram” para o Guia lol). Bem, pelo meio encontrei um post da Nicolau onde ela sugeria também alguns (que o autor já tinha acrescentado ao início mas eu ao princípio não reparei). Acabei por ir dar a este blog: Só Pedrada Musical (da autoria de Tamenpi).

Ora nesta parte eu entro numa grande euforia e não me lembro de mais nada. Não, estava a brincar. Primeiro gostava de dizer que tive a sensação de que devia ser a única pessoa da nossa comunidade online que ainda não conhecia o blog. Depois, gostava de confirmar que realmente dei em maluco. E desatei a (piii). Aquilo parecia que tinha tudo. Tentei variar. Ao mesmo tempo que ia (piii), fui passando os arquivos a pente fino e fazendo uma lista do que me interessava. Aqui fica a lista:

DIA 1
- Exile – “Radio” (2009)
- Black Milk – “Tronic” (2008)
- Common – “Finding Forever” (The Breaks) (2006)
- Common – “Finding Forever” (2006)
- Jean Grae & 9th Wonder – “Jeanius” (2008)
- Reflection Eternal (Talib Kweli & DJ Hi-Tek) – “Train of Thought” (2000)
- KRS-One & Marley Marl – “Hip Hop Lives” (2007)
- Gang Starr – “Moment of Truth” (1998)
- GZA – “Liquid Swords” (1995)
- Pete Rock – “Soul Survivor” (1998)

No dia seguinte, voltei à carga (a arriscar um pouco mais):

DIA 2
- DJ Doc Rok – “The Biggie Hendrix Experience” (2008)
- Atmosphere – “Strictly Leakage” (2007)
- Little Brother – “The Listening” (2003)
- Pharoahe Monch – “Internal Affairs” (1999)
- “Soundbombing Vol.2” (1999)
- Blockhead – “Uncle Tony's Coloring Book” (2007)
- De La Soul – “Stakes Is High” (1996)
- Mos Def & Talib Kweli – “Blackstar” (1998)
- Marco Polo – “Port Authority” (2007)

Pronto, depois disso, ainda (piii) mais umas cenas, sempre a tentar variar, mesmo sabendo que algumas nunca seriam espantosas:

- J. Dilla – “Ruff Draft” (reedição: 2007)
- Soundtrack “Bomb the System” (El-P) (2005)
- Busta Rhymes & J. Dilla – “Dillagence” (2007)
- Kanye West – “Graduation” (2007)
- The RZA Presents “Afro Samurai - Resurrection” (2009)

Algures pelo meio descobri um álbum do qual já tinha ouvido músicas e que tinha muita curiosidade em ouvir (por motivos pessoais: gosto muito de Blues e de Jazz): Madlib – “Shades of Blue” (o tal com samples autorizados pela Blue Note). Infelizmente (damn it!) o link já não dava, mas eu desde aí que tenho andado com o CD na cabeça a chatear, tenho que ver se o arranjo (pedi ao Tamenpi para ver se me arranja, ainda estou à espera de resposta).

Depois de constatar que havia bastantes blogs com cenas para (piii) (facto que desconhecia: blogs, não sites). Então fui (piii) mais umas cenas:

- The RZA Presents “Afro Samurai – Resurrection” (2009)
- RZA (as Bobby Digital) – “Digi Snacks” (2008)
- Aesop Rock – “None Shall Pass” (2007)

Facto engraçado que se passou com este álbum do Aesop Rock: antes de (piii) eu nunca tinha ouvido as músicas com a voz por cima (excepto a “Citronella”, a “None Shall Pass” e a “Coffee”), apenas os instrumentais que arranjei graças à gentileza da Nicolau. O efeito até foi engraçado. Fez lembrar quando ouvimos alguém novo a pegar em beats que já foram usados (olhem, o caso da M7, por exemplo).

Bem, entretanto deixou de caber tudo no leitor de MP3, e eu pus umas cenas de lado. Sou capaz de substituir mais algumas para não ter só hip hop americano no leitor. Vou ver se ponho umas cenas de outras nacionalidades, e também sem ser hip hop (às vezes apetece ouvir outra coisa, e lá está, tem de se “abrir os horizontes”).

Com tanta cena no leitor, comecei a reflectir no que é (piii) tantos álbuns em tão pouco tempo: um milagre e uma maldição (e um atentado no tráfego).
Um milagre porque subitamente tenho à minha disposição quatrocentas e tal músicas que posso ouvir quando quiser, onde quiser (com o único preço de gastar bateria ao leitor: oooh não!).

A maldição é que eu quando ouço um CD novo, gosto de me concentrar nesse CD e não ouvir mais nada. Normalmente, isso é fácil porque o resto já ouvi quinhentas vezes (a não ser quando compro mais que um CD na mesma ocasião). Ora, com montes de CDs que não ouvi ou que ouvi poucas vezes no leitor, um dia posso ouvir isto, mas no seguinte já me apetece ir ouvir outro. Há ainda outro defeito, que tem a ver especificamente com ouvir música no MP3. Costumo usar o leitor quando estou a dirigir-me para algum sítio, seja a pé, de autocarro, comboio ou carro. É um bocado chato de cada vez que quero saber o nome da música que estou a ouvir ter que tirar o leitor do bolso (enquanto que quando compro um CD, logo a primeira coisa que faço quando chego a casa é sentar-me junto à aparelhagem, pôr o CD a tocar e ir explorando o livrinho que vem em conjunto).

A maior vantagem de todas é que os meus pais compraram uma aparelhagem das boas, muito melhor do que a minha que já tem uns 5 ou mais anos e que gosta de empancar na primeira música aos zero minutos e quarenta e tal segundos (aliás, nas outras também empanca às vezes), e que tem ligação USB, logo eu posso estar sentado no sofá e ir percorrendo com o comando as pastas até encontrar a que quero. Outra cena é o facto de alguns dos álbuns serem antigos e ser impossível arranjar em algum sítio (clássicos do J Dilla, Pete Rock, etc.).

Concluindo, espero não vir a ter uma congestão desta música nova toda, mas quando finalmente acabar vou querer repetir a dose. Claro, como sou um consumista (no sentido de comprar) de música assumido invariavelmente vou tentar arranjar alguns dos CDs que estou a ouvir (dos que gostar, e para os que as poupanças derem). Vocês juntem dinheiro, e façam o mesmo.

Ah, já agora, duas cenas que encontrei à algum tempo, e que não tiveram muito buzz:
- Mixtape “Ol’Dirty Bastard Remembrance” (A Tribute to Ol’Dirty Bastard) (2008)
- Termanology – If Heaven Was a Mile Away” (A Tribute to J Dilla) (2008)
NOTA: Podem sacá-las (porque é um piii legal) no Guia de Hip Hop na Internet.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Hip Hop Feminino

«É claro que o Hiphop é um contexto muito masculino e em que as mulheres são uma minoria que ainda procura o seu espaço, mas acreditamos que à medida que forem aparecendo mais mulheres, muitas outras seguirão o exemplo, da mesma forma que se a qualidade do que é feito for também aumentando, a têndencia é para que melhore cada vez mais.»

Sygyzy em entrevista ao blog Assalto Sonoro (18 de Junho de 2006)

O que me inspirou a escrever este artigo foi o lançamento da Mixtape “Martataca” da MC M7. Soube desta notícia a partir do blog da Nicolau. Fiquei também a saber que esta pertencia a um grupo, Sygyzy, constituído por quatro elementos: duas MC’s, uma cantora e um DJ (coitado do gajo… ou talvez não lol). A outra MC, de nome Capicua, tinha lançado por sua vez o “Capicua Goes Preemo Vol.1” em finais de 2008. Bem, de tudo isto, a única coisa que eu já tinha ouvido falar era do nome do grupo. E isto porque vi o banner no H2Tuga (nem sequer sabia que tinha esta característica especial de incluir MC’s femininas). Isto porque, como vos disse no post anterior, durante os últimos dois anos, dois anos e meio, estive praticamente só concentrado na cena internacional (nomeadamente norte-americana). Aproveito para comentar que 2008 foi um ano em cheio em termos de lançamentos.

Bem, então lá fui eu sacar as músicas destas duas MC’s. Confesso que não sabia o que esperar, mas seja o que fosse, superou as expectativas e não há dúvida que de algum modo estas duas MC’s já conseguiram inovar no Hip Hop Tuga. E é interessante verificar que as duas são bastante diferentes uma da outra: a Capicua é mais calma, ponderada, mostrando-se um pouco indefesa até. A M7 tem a força da “mulher do século XXI” misturada com uma característica, que eu até concordo com a Nicolau que seria mais difícil encontrar noutro lado que não no Norte, aquilo a que se chama ser uma “mulher do Norte” (acho que a expressão disto tudo). Um exemplo? O que é que é pior: arranjares sarilhos com um guna ou com uma velhota daquelas do Bolhão?...
Contudo, notem que não se pode dizer que uma é mais feminina que outra. Ambas o são, e é com agrado que constato que nem a Capicua caiu no “erro” de cair para o R&B (Dama *cof* Bete) nem a M7 caiu no erro (sem aspas) de se masculinizar. E no entanto uma faz músicas de amor de uma maneira inegavelmente feminina e a outra faz músicas de egotrip com alguma punchlines bem duras.

É um exercício interessante descobrir as inúmeras diferenças entre o rap feito por estas duas raparigas e aquele que todos conhecemos (o masculino). Tal como os MC’s masculinos costumam dirigir-se a um ouvinte masculino (ainda que, dada as regras da gramática, possam ser ouvintes no geral), estas duas dizem coisas como “amiga, como tu, tenho medo da rejeição”.

Resumindo, a nota é positiva. No entanto há que advertir que, se o objectivo final for a igualdade entre sexos na cultura Hip Hop (uma batalha nada fácil), haverá sempre obstáculos dificilmente ultrapassáveis. Exemplo: há músicas da Capicua e da M7 que dificilmente alguém do sexo masculino se identificará com o assunto, o mais provável é até rejeitar com uma careta (lol). Nunca tinha pensado nisso de outra perspectiva, mas também de certeza há (e numa quantidade avassaladora comparativamente com o outro lado) de músicas (portuguesas e outras, claro) com temas mais masculinos que talvez o sexo feminino não entenda ou não se interesse por. A pergunta é: como se resolve isto? Ou não se resolve?

É que se eu fizer uma música sobre bitches e hoes, isso dificilmente se traduzirá num obstáculo na hora de obter um sucesso na bilheteira, mas uma versão feminina, pelo menos enquanto o Hip Hop não conquistar mais público desse sexo, é bem capaz de ser rejeitada.

Se o percurso for percorrido eficientemente, e dada a enorme carência, acredito que é uma questão de tempo até que apareça uma MC portuguesa que inove de uma maneira brutal (se é que não é nenhuma das duas). Há uns anos, eu lembro-me que até se falavam numas quantas: as Lweji, a Sky, as Backwords (pelas quais eu até tinha uma certa admiração) etc, etc. Entretanto, parece que se manifestaram tanto quanto o site da Hip Hop Ladies, ou seja, morreram.

Mais uma coisa: sem dúvida que a melhor MC feminina para mim (e do que eu conheço) é a Jean Grae. Tem um flow e uma escrita que igualam o de muitas lendas masculinas. Porém não tem nenhuma fixação por “agredir” o sexo masculino. Será porque o caminho, por algum motivo, lhe foi facilitado? Se foi, então palmas para o responsável. O que é certo é que acredito que é um modelo a seguir para as MC’s femininas (mas não lhe copiem o estilo! lol).

Agora, não sei se repararam, mas eu pus o título “Hip Hop Feminino” e não “Rap Feminino”. Que eu saiba, a carência do sexo masculino é notável nas quatro vertentes: no breakdance, acho que ainda há grupos que até já têm algum respeito (mais a nível internacional); no graffiti não faço a mínima; DJ’s nunca vi (ou se vi deu-me uma branca); MC’s já referi antes. Dado que percebo muito mais da vertente do Rap do que das duas primeiras, também seria difícil conhecer muitas b-girls e writers femininas. Deixo a análise das outras vertentes para vocês.

Lembrar também que isto tudo está no início, e não se deve exigir demais, ou como a M7 repete umas cinco vezes na Mixtape dela:

«Não se constrói uma casa a começar pelo telhado»

M7 - Intro in Martataca (2008)

Para sacarem as músicas vão à secção “Downloads do Guia de Hip Hop na Internet.

domingo, 18 de janeiro de 2009

CR - O Regresso

AVISO!
O comprimento deste post é prova do nível de inspiração que o autor tem para voltar ao activo.

Ora bem, cá estou de volta. Começo por realçar que irei pôr os posts que faltam no mês de Dezembro de 2008. Foi um ano difícil, este. Juntamente com muita preguiça, falta de tempo e de inspiração, acabou por resultar neste “buraco” nos arquivos do CR. Para além disso, ainda tive um “problemazito” que me fez perder montes de coisas que tinha guardadas em suporte digital, principalmente devido à minha estupidez. Entre elas, claro está, encontravam-se uns quantos posts já escritos para serem futuramente expostos no blog. Felizmente, umas semanas antes do acidente, tinha andado a passá-los pró papel, logo não deviam estar assim tão diferentes do que os que tenho guardados.

Enquanto andava a organizar de novo as cenas que tenho guardadas do blog, fui relendo os comentários que foram feitos aos meus textos desde o início, e creio que isso me deu bastante motivação. No entanto, dada a falta de comentários nos últimos posts, pergunto-me se algures pelo meio os meus tópicos terão perdido interesse. Admito que talvez não estivessem tão cuidados (ou elaborados) como os anteriores. Vocês, caros leitores, dir-me-iam quando puderem.

Prosseguindo, o facto de não ter postado nada não quer dizer que não tenha pensado no blog no ano de 2008, e reflecti um pouco no caminho que ele estava a tomar. O meu blog não é pessoal, e eu apenas escrevo um tipo especial de textos, que são aqueles assuntos dos quais eu gostava de ouvir outras opiniões. Decidi começar a ser um pouco mais informal daqui em diante, sem abandonar de todo a linha que caracteriza o CR. Além disso, se me apetecer mesmo pôr um post que não está relacionado com a filosofia do CR (ex: assuntos que não tenham directamente a ver com Hip Hop), posso sempre criar um outro blog ou um anexo.

Reparem que andei (e ainda ando) a actualizar o Guia da Internet. Espero que esteja a ser útil. Ainda, provavelmente já notaram (e ainda mais provavelmente, já se esqueceram) de que eu não pus aqui nenhum post do tipo “Convidado”, que supostamente seria para alguém que não eu escrevesse qualquer coisa para o blog. Não sei se porque peço de mais, ninguém me liga ou por azar todos os e-mails para onde envio convites estão como que mortos, a verdade é que não tenho conseguido nenhum progresso. Por isso, esse tipo de post está oficialmente “suspenso” até eu decidir tentar de novo.

Queria também anunciar que brevemente irei pôr online as rimas que já faço a alguns anos. Como nunca trabalhei com nenhum produtor, vão estar em acapella (ou talvez lhes ponha uma batida por baixo para disfarçar). Esperemos que algum produtor se interessa por aquela “obra-de-arte”. Qualquer pessoa, como um MC de que tenha falado mal ou assim, que se queira vingar de mim pode fazê-lo no meu Myspace. Nota: a “música” que lá está foi para dizer que tenho alguma coisa. Não tenho experiência de produção, só não queria era deixar aquilo sem nada.

Outra coisa que se passou em 2008 (embora não tenha começado nesse ano) foi o meu isolamento do hip hop tuga. Desde há uns três anos para cá, tenho estado concentrado mais no hip hop estrangeiro, principalmente o norte-americano, não dispensando qualquer tempo para me actualizar sobre o que se passa na Tuga. De maneira que há muitas coisas que muita gente já sabe e eu só descobri há uns dias, depois de começar a investigar um pouco na Internet. Aproveito para abordar alguns dos assuntos mais recentes.

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VIDEOCLIP “DOPPING” DO SAM THE KID
Há uns dias fui ao blog do Primouz e encontrei o último videoclip do Sam The Kid, “Dopping”, uma música que ainda não conhecia, e que presumo vir da reedição do álbum Pratica(mente) (à parte: grande cena essa da reedição, lixou-me bem, o STK lol). Ora a música até está boa, mas o videoclip, sinceramente… Aquilo nem é não conseguir ser um bom videoclip, é ser mesmo mau videoclip: primeiro, é muito banal, não acrescenta nada de significativo à música; segundo, é destas festas com paredes luminosas que dão bem para aparecer na Lux. Se não fosse o STK ser talvez o meu MC/produtor português favorito (dado que utilizei o adjectivo “favorito”, bem que me podem acusar de favoritismo) isto ainda seria um pouco mais duro. Para finalizar, uma pergunta: imaginem que não conheciam o STK, e que este era o primeiro videoclip (e já agora, a primeira música) que viam/ouviam dele. Qual era a vossa impressão?

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MAMÃ, ESTOU NO YOUTUBE!
Descobri, anteontem, que sou uma vedeta no YouTube. Ná, pronto, só apareci em dois vídeos, num deles em terceiro plano, no outro no meio da multidão, e não é nenhuma surpresa o facto de aparecer lá. O primeiro foi num vídeo do concerto espectacular do Marcelo D2 na Casa da Música; o segundo é um vídeo (descoberto também no Primouz) sobre o festival “HipHoPorto 2008”, também na Casa da Música. Por isso para tornar o final deste post divertido, e para compensar os leitores do aborrecimento que foi ler isto tudo, proponho um jogo. Vocês têm que adivinhar quem é que eu sou. E decidi que as regras são estas:
- Tempos:
> Concerto Marcelo D2 – mais ou menos 1:09 (altura em que fico mais centrado)
> HipHoPorto 2008 – 1:54 (logo, logo, logo)
- Ajuda: comecem pelo segundo vídeo. Aos 1:54 (logo, logo, logo) conseguem-se perceber 6 pessoas. Tentem reconhecer alguma dessas pessoas no primeiro vídeo (muahaha).
- Objectivo: descrever onde eu estou situado na imagem do segundo vídeo (aos 1:54).
- Prémio: uma chicla Bubblicious com “sabor a Hip Hop” (se isso ainda existir – esse sabor, não o Hip Hop).
- Comentário final: dado que é praticamente impossível para quem não conheça a minha cara, eu até apostava 1 milhão de euros, mas sou um tipo cauteloso. Boa sorte!
Warning
Não é válido para nenhum dos espertos que me conhece, obviamente.

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SÓ MAIS UMA.. DUAS CENAS!
Não me perguntem como foi o concerto do Gabriel o Pensador no Enterro da Gata, porque não fui. Melhor: comprei o bilhete, mas não fui. Quando penso nisso, ainda fico deprimido. Pelo que ouvi dizer na altura, foi muito bom.
Comprei ontem o último álbum dos Looptroop (agora Looptroop Rockers) de 2008, que dá por nome de Good Things. Surpreende-me que nenhum blog de hip hop tuga (dos que eu visito) tenha falado nele, em especial este e este (então como é que é?! lol).
Ah, um extra: ainda bem que o autor do Piecemaker já voltou. É pena é que já tenha abandonado o blog outra vez lol

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Ora bem, acho que é tudo. Não abuso mais da vossa paciência. Como podem observar, eu estruturo tão bem os meus textos, que tanto a introdução como a conclusão começam com a mesma expressão: “ora bem”. É de aplaudir esta repetição propositada (ou então simplesmente porque não me dei ao trabalho de pôr outra expressão equivalente). Abraço a todos (“abraço” porque dá para os dois géneros) e comentem!

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

CR - 1 Ano Depois...

EDIT: Este post faz parte dos que foram publicados com atraso, sendo concluídos apenas em Janeiro de 2009, embora pertençam a Dezembro de 2007. No entanto, o autor concluí-os como se não tivesse havido atraso algum (e ainda estivesse em Dezembro de 2007). Este post em concreto, foi pensado ainda quando os primeiros textos ainda estavam a ser publicados neste blog, mas apenas concluído também em Janeiro de 2009.

Um ano depois de ter criado este blog, confesso que estou satisfeito com o resultado.

Ao princípio, não sabia bem durante quanto tempo ia durar, ou sequer a quem me queria dirigir. Dado que achei que talvez não tivesse grande divulgação, achei que também não valia muito a pena pensar nestes assuntos. Era o meu blog, e acabava aí. Despejava para aqui os assuntos sobre os quais gostava de saber outras opiniões, mas que não tinha oportunidade de o saber de outro modo pois não convivia diariamente com pessoas que partilhassem esta paixão tanto como eu.

Comecei por divulgar o blog nos fóruns (nos quais tinha sido viciado a algum tempo atrás). Tive 5 comentários no primeiro post (sem contar com o meu), e para mim isso foi muito bom. E deu-me pica. À medida que postava, ia “afinando” a filosofia do blog, construindo o seu carisma, ou como comentou o André Silva num dos tópicos, «fazendo algo à sua própria imagem».

Fui tendo mais leitores, comentários de outras pessoas, algumas até de Braga, para minha surpresa. Achei que talvez conseguisse ter o meu próprio lugar, e dado que não havia (e ainda não há) assim tantos blogs sobre hip hop tuga (principalmente), continuei na minha aventura.

Ia escrevendo, no computador ou à mão, os meus posts, tirando notas sobre as entrevistas que lia, as notícias de que tinha conhecimento, gravando emissões do Nação Hip Hop que achasse que me seriam úteis para mais tarde. Ao mesmo tempo fui expandindo o blog noutras direcções, de que são exemplos os anexos do CR. Estes seriam formas de ajudar o leitor a ter a informação completa sobre aquilo que eu escrevia. Todas estas coisas ajudaram a que o blog ficasse mais forte, mas uma coisa fica clara: o blog não seria nada disto se não fossem as pessoas que me foram ajudando a passar todas as etapas até que ele se tornasse o que é agora. A essas pessoas, aqui vão os meus agradecimentos:

À Joana Nicolau pelo imenso auxílio tão fundamental que me prestou, em diversos aspectos do blog; ao A.Silva e ao P.Silva pelos conselhos e elogios (e dos primeiros!); a estes três e ao resto da já desintegrada equipa IV STREET (R.I.P.) pelas duas oportunidades que tive de participar na revista (sem dúvida o ponto máximo do meu trabalho como estrofe).

Ao PM e ao seu animado blog Hip Hop Excêntrico.

À Footmovin por ter autorizado que a sua música fosse incluída na playlist do blog.

À Equipa XLRap.

Aos outros blogs que aqui já estavam quando eu cheguei e que me fizeram sentir acompanhado (por ordem alfabética): Assalto Sonoro, Fonocaptador, Hit Da Breakz, Horizontal Records, Piecemaker e Suburbano; E ao DarkSunn e o seu blog Reality Break Records que entretanto nasceu (e cresceu).

À Sofia Meireles, Filipe Nunes e o resto da equipa H2Tuga, muito obrigado pela paciência, ajuda nos problemas técnicos do blog e oportunidade de estar conectado com o melhor site de hip hop tuga (sem dúvida!).

Ao Hip Hop Web (que esperemos que regresse).

Por último, last but not less, queria agradecer aos meus estimados leitores por terem lido os meus posts e reflectido sobre o seu conteúdo.

Daqui para a frente, é sempre a dar-lhe!

Chegamos à parte que foi pensada há quase um ano atrás, e para acabar de forma emocionante. A todos:

Obrigado, Sinto-me [enaltecido, vá]
Sem ti nada disto era real
Eu sou a rima e tu o instrumental
(…)
É [pela tua persistência]
Q’ainda existe o [Cultura de Resistência]
Mais uma vez obrigado
Sinto-me [elogiado]
Obrigado por ouvires tudo o que tenho a dizer
Tudo o que escrevi, tudo q’ainda hei-de escrever, obrigado

Boss AC - Sentir Tão Bem in RAP - Ritmo, Amor e Palavras (2005) (excerto adaptado)

Esperemos que o AC não se zangue. Afinal isto é só o blog de um puto que é parvo :D

Fiquem bem.