EDIT: Este post faz parte dos que foram publicados com atraso, sendo concluídos apenas em Janeiro de 2009, embora pertençam a Dezembro de 2007. No entanto, o autor concluí-os como se não tivesse havido atraso algum (e ainda estivesse em Dezembro de 2007).
«O Hiphop é provavelmente a cultura internacional mais nacionalista»
Para escrever este tópico, houve três fontes que achei bastante relevantes: o texto do Valete no blog da Horizontal, intitulado “Fernando Cabeça-na-Lua”; a entrevista do Sam The Kid ao Rui Miguel Abreu no Nação Hip Hop (a qual gravei em cassete); o post da Nicolau sobre esta polémica no seu blog.
Para desmistificar certas crenças que algumas (não digo a maioria) pessoas têm, há que começar por referir que esta discussão NÃO começou com a música “Poetas de Karaoke”. Já existia dentro do hip hop tuga e já existia fora do hip hop tuga. A diferença é que muitas pessoas entenderam a mensagem desta música como um ataque de um artista (Sam The Kid) de um universo específico (o Hip Hop) a outro artista (mais propriamente, artistas: os Moonspell) de outro universo (o Heavy Metal). Depois começou-se a generalizar, e a comunicação social andou a esfregar as mãos com títulos do género: “Hip Hop vs Heavy Metal” e sabe-se lá que mais. Voltemos à raiz do “problema”.
O Sam The Kid lançou em 2006 o Pratica(mente) cujo o single se chama “Poetas de Karaoke” , apresentado como um “protesto contra os músicos portugueses que cantam em inglês” (STK justificou ter escolhido a música como single afirmando que é um assunto sobre a Música). A partir daqui, a coisa descambou.
Vou tentar relatar-vos como tudo aconteceu (espero ser fiel à ordem cronológica dos acontecimentos): certos fãs de heavy metal ouviram o nome “Moonspell” na música do STK e interpretaram a mensagem da maneira errada (mais à frente explico porquê); a polémica ganhou força, os jornalistas deram conta e foram questionar o vocalista dos Moonspell, um tal Fernando Ribeiro, o qual respondeu aos comentários com uma crítica ao STK e ao Hip Hop Tuga em geral. Foram estas as suas declarações ao jornal Correio da Manhã:
«Ficámos tristes e desiludidos. Custa-nos ver músicos como o Rui Veloso pactuarem com um vídeo que, apesar de defender a nossa língua, é agressivo e completamente americanizado... (…) A comparação feita com o nome dos Moonspell é infeliz. Fizemos mais por Portugal do que qualquer banda de hip-hop. Levámos para fora poetas como Pessoa, Cesariny, José Luís Peixoto. Já gravámos em português. A nossa música tem muito mais portugalidade que o hip-hop. Cantamos em inglês porque essa é a língua de comunicação no Heavy»
- Fernando Ribeiro (Moonspell) in Correio da Manhã (Data: ???)
As declarações do STK no mesmo artigo:
«Até os admiro muito por tudo o que conseguiram. Esta canção é um alerta aos músicos que cantam em inglês para vender mais... Afinal, a Dulce Pontes e os Madredeus, que também refiro na canção, internacionalizaram-se, mas em português. (…) Canto hip-hop e, se calhar, até sou mais americanizado que o David Fonseca, que canta em inglês. Foi por isso que também me caricaturei. Sabia que iam pegar por aí.»
- Sam The Kid in Correio da Manhã (Data: ???)
Vou começar por falar da polémica. Na minha opinião, e pelos vistos está certa, dadas os comentários do Sam The Kid, não só ao Correio da Manhã como a uma série de outras entrevistas, ele não queria atacar os Moonspell. Vou-vos mostrar os versos em questão:
Querem ser os Moonspell querem novos horizontes
Mas aqui o Samuel é Madredeus é Dulce Pontes
Porque há uma identidade, vocês são todos idênticos
São autênticos mendigos vendidos por cêntimos
Acho que aquilo que despoletou esta polémica menor (dentro da polémica maior que é a discussão de se cantar em inglês ou não) foi as pessoas terem ignorado aquela parte do primeiro verso que diz “querem ser”. Se riscarem isso e voltarem a ler, realmente assim parece que o STK está a atacar os Moonspell. Só que essa parte faz toda a diferença! Se calhar se as pessoas lessem mais não teriam tantos problemas em interpretar o que outras pessoas escrevem.
«Querem ser os Moonspell». Quem? Bem, os Moonspell não são de certeza, pois que sentido faz que queiram ser eles mesmos se já o são? Para saber a quem o Sam The Kid se está a referir, tem que se ler a letra toda: o STK refere-se às pessoas que cantam em inglês tendo em vista o sucesso (especialmente o financeiro: “são autênticos mendigos vendidos por cêntimos”).
Para lerem o excerto da entrevista que transcrevi de cassete, com muito suor, para papel, ou melhor dizendo, para um documento Word, basta clicar aqui. Foi a primeira vez que fiz algo do género, e como vocês também poderiam notar se o tivessem feito, é muito diferente quando é uma entrevista dada na rádio ou para um jornal, isto porque num jornal eles “limpam” tudo, ou seja, aquelas repetições ou palavras desnecessárias (não me entendam erradamente, não estou a falar da censura) que as pessoas normalmente acabam por dizer numa entrevista oral (tal não sucede se for dada por e-mail ou Messenger). Contudo, decidi não limpar nada, incluindo, por exemplo, os “…, ‘tás a ver?” do Sam The Kid, pois dão um aspecto ligeiramente cómico à entrevista. Eu tinha a entrevista no IMEEM, mas dado que foi o IMEEM desapareceu, criei um blog para postá-la. Depois pensarei numa solução melhor.
Em breve a continuação, para responder à verdadeira questão…
