sábado, 28 de abril de 2007

Morto?

«It's a pretty good chance you're the reason it died, man»

Nas - Hope in Hip Hop Is Dead (2006)

Já devem ter reparado que anda a passar, já há algum tempo, o single “Hip Hop Is Dead” de Nas, que dá nome ao último álbum do autor. Aproveito para dizer que tanto o beat (da autoria de Will.i.am) como a letra estão, como é habitual na discografia deste artista, excelentes. Todo o CD ronda à volta do assunto da comercialização do Hip Hop e naquilo que se tornou nos dias de hoje (em particular nos Estados Unidos). “Who Killed It?” e “Hope” são outras faixas que provam isso (e igualmente aconselháveis).

Mas vamos à temática: Nas aborda, descreve e critica a fusão do Hip Hop com a indústria (em excesso), que é uma preocupação que é também válida noutros países, como a França, Alemanha, Inglaterra, etc. Em Portugal acho que não se verifica uma situação tão grave, apesar de não haver dúvidas de que o Hip Hop já está na moda. Mas, mais do que a questão das editoras, a parte mais preocupante é a atitude dos artistas.

Concentremo-nos no estado da cultura nos EUA: o Hip Hop está em alta, vende milhões e compete com outros géneros musicais poderosos como o Pop e o Metal; rappers que anteriormente viviam no ghetto agora vivem em grandes casas e fundam majors que os tornam ainda mais ricos; esta situação é real já há algum tempo, o que deu tempo para o mercado se habituar. Resultado: a indústria da música define o Hip Hop como uma prioridade e encara-o como uma mina de ouro; os rappers que anteriormente falavam dos ghettos onde viviam, agora falam dos casarões onde vivem; a criação de editoras por parte dos mesmos reforça a monopolização do mercado. Não se surpreendam portanto por verem rappers a exibirem dentes e colares de ouro, sentados em limusines a beber vinho de boa colheita, pois a vida deles agora é mesmo assim. É legítimo que eles esvaziem a cultura de todo o seu conteúdo positivo e a usem em proveito próprio? Não. Ainda que eles possam ter percorrido o caminho até ao sucesso sem nada a condenar (ou talvez não), isso não lhes dá o direito de parar de contestar e de denunciar e passarem a falar da boa vida que levam. Enquanto ricos, têm muito mais oportunidades para apoiarem o movimento, que era o que deveriam fazer, em vez de o destruírem e “sujarem” com a pura exploração que fazem dos seus fãs. A metáfora é usada para exprimir isto tudo, quando o Hip Hop deixa de ser Hip Hop, ou seja, “morre”, porque ele nunca terá como lema “bebam, tomem drogas, façam sexo” (50 Cent).

Todo este drama é lamentável, e espero que não aconteça o mesmo em Portugal (o facto de sermos um país pequeno ajuda-nos neste caso). O Hip Hop está morto? Não. Quanto muito poderia dizer-se que nos EUA está em “estado de coma”. Mas enquanto existirem pessoas como Nas, KRS-One, Immortal Technique e outros tantos, o Hip Hop americano não morrerá, e muito menos nos outros países.

«If hip hop should die we die together»

Nas - Hip Hop Is Dead in Hip Hop Is Dead (2006)

Para saber mais sobre este assunto, vejam o artigo do Hip Hop DX.

quinta-feira, 19 de abril de 2007

Quando foi?

É estranho como acabamos por nos esquecer da primeira vez de (quase) tudo. Ah, lá estou lá eu a divagar. Relativamente ao hip hop tuga, diria que comecei a ouvir há uns seis anos (por volta de 2001). Falo do hip hop tuga, porque o hip hop em geral foi quando andava na escola primária, houve aquela primeira onda do Eminem. A esse, só lhe agradeço a divulgação (é uma das poucas vantagens de estar na moda), porque tenho muitas mais razões para o insultar. Acho que o grande ídolo do rap, aquele que realmente me marcou, foi o Gabriel o Pensador, com o seu EP, que tenho um original cá em casa, cortesia do meu pai. Também foi da cortesia do meu pai o original da colectânea Rapública, mas na altura ela não me despertou curiosidade (também não sabia o que simbolizava). Para vos dar um exemplo dos efeitos do “Gabriel, o Pensador”, lembro-me que com apenas 11 anos escrevi um poema baseado na música “Retrato de Um Playboy (Juventude Perdida)”, com um título ligeiramente diferente (calma, não comecem a chamar-me fake) mas sem qualquer semelhança no conteúdo (claro está, muito pior).

Nessa primeira fase, acreditem ou não, não me lembro de outros rappers que ouvisse, para além de Eminem (e Dr. Dre e companhia, obviamente) e o grande Gabriel (talvez mais alguns americanos). No quarto ano descobri o hip hop tuga. A primeira imagem que tenho (mas que pode ser enganadora) é a de estar a ouvir uma cópia do EP dos Guardiões de Subsolo (a quem agradeço). Quanto ao resto já falei aqui: Sam The Kid, Mind Da Gap, Boss AC, Da Weasel, etc. O que importa relatar é que continuo a gostar da música deles (e de outros que entretanto descobri).

O facto de ter começado a ouvir hip hop na escola primária (quem ler isto até pensa que vivo num ghetto) fez-me ter um conhecimento do hip hop português que não poderia nunca obter de outra forma. Consigo ver pelos fóruns da Internet sobre hip hop que esta moda (“falsa moda”) foi fulcral para arranjar novos adeptos (basta ver o número de pessoas que começaram a ouvir desde à três anos para cá). Nunca poderão saber como era o hip hop antes desta mais recente onda, assim como eu nunca poderei saber como era a old school aqui, já que estava virado para outras nacionalidades na altura (para além de ser um iniciado). Com tudo isto, lamento ainda não me ter envolvido (mas não perco a esperança) em alguma crew ou grupo de pessoas que realmente gostassem de hip hop (sempre achei que isso era difícil em Braga, apesar de nestes últimos meses se ter provado que estava enganado).

Façam agora esta pergunta a vocês mesmos e comentem aqui no blog quando foi e, já agora, como foi a primeira vez que estabeleceram contacto com esta cultura, seja através do rap, breakdance, graffiti ou qualquer outra vertente.

sábado, 7 de abril de 2007

Mania dos Melhores

Algo aborrecido em alguns dos fóruns de hip hop, os quais reflectem a mentalidade de alguns ouvintes de hip hop português, é a constante procura do melhor MC ou DJ neste aspecto ou naquele. Isso é entediante, não só porque se criam trinta tópicos com essas merdas mas também porque nunca se chega a uma conclusão. A conclusão de não haver conclusão (não se baralhem) é que é muito difícil chegar a esta.

A característica mais bizarra é que, muito estupidamente (estou a perder os poucos leitores deste blog), os criadores dos tópicos não pedem “diz-me os 30 melhores MC’s de Portugal” mas sim “diz-me qual achas que é o Melhor MC de Portugal”! Isto leva a deduzir que o causador desta idiotice tinha a suposição, muito ingénua (e arrogante), de que é possível reduzir uma cultura já muito grande e diversificada, que foi sendo construída ao longo de mais de uma década, a uma única personagem, que representaria o movimento de rap português na perfeição. O pressuposto demonstra a incapacidade destas pessoas de perceberem que o rap (aliás, muitos generalizam para o hip hop) tem imensas facetas e que já é muito difícil reduzi-lo a 30 pessoas, quanto mais a uma única! Vá lá, que alguns especificam qual a habilidade que preferem que se realce (flow, mensagem, …), mas mesmo assim…

Compreendam que dá para chegar ao melhor, ou pelo menos aos cinco melhores, mas isso é o que é feito nos concursos desse tipo, e são eleitos júris qualificados para tal, agora perguntem-se porquê... ou consideram-se sábios incontestáveis na matéria?! Resumindo, cada um pode fazer o que lhe dá na tola nos fóruns (desde que não infrinja as regras), mas depois não se espantem se descerem uns pontinhos na consideração dos outros utilizadores...

Neste texto, falo dos melhores, e não dos favoritos, já que há uma diferença, ainda que relativa. Favoritos, toda a gente tem, mas para isso é necessário algo mais que simplesmente os skills habitualmente julgados. Quando começamos a falar de favoritos, falamos de gostos, e gostos são gostos.

NOTA: Peço desculpa aos leitores porque este tópico estava anexado a outro (que irá mais tarde ser postado), mas eu à última da hora decidi separá-los, por isso ficou um bocado pequeno, além de que já devia ter sido postado ontem. No entanto, acredito que este assunto, só por si, já justifica um lugar aqui no blog, pois há muitos lados por onde ver o assunto. Reflictam nele e comentem (e esclareçam)!

quarta-feira, 28 de março de 2007

Abrindo os Horizontes - 3

«E não é menos Hip Hop só porque falas de mulheres»

Boss AC - Hip Hop (Sou Eu e És Tu) in RAP - Ritmo, Amor e Palavras (2005)


Terceira e última parte deste sermão sobre diversidade musical: desta vez, dentro do próprio hip hop português. Vou-vos dar uns nomes, que certamente muitos de vocês já conhecem: Dealema, Sam The Kid, Mundo Complexo, Valete, Regula, Mind Da Gap, Dupla Consciência, Lancelot, Micro, Adamastor e Suarez. Para quem conhecer um pouco melhor esta cultura, pode estabelecer aqui algumas ligações: Dealema e Mind Da Gap, Sam The Kid e Regula, Valete e Adamastor. Os outros não têm uma relação directa entre eles (não quer dizer que nunca se tenham juntado para fazer algum trabalho, mas antes que o estilo é diferente). Esta “salada” (penso que foi o Buddah que lhe chamou assim) é uma virtude para o hip hop tuga, significa que não se copiam todos uns aos outros e que há muita criatividade envolvida.

Mas há quem despreze este valor positivo. Chamo-lhes conservadores porque acham que o hip hop devia estar sujeito a uma quantidade muito maior de regras do que está na realidade. Os conservadores do tipo fanático acham que o hip hop devia falar estritamente de consciência social, enquanto que os do tipo leigo preferem os temas amorosos, sobre mulheres e festas. Nem oito nem oitenta. Chamo-lhes ignorantes porque é isso que fazem: ignoram partes da história desta cultura e esquecem algo muito importante, que é o espírito africano. Ele (ainda) persiste e está entranhado no hip hop e está relacionado com um ritmo muito especial. Isso, combinado à situação primitiva de muitos imigrantes nos anos 70, é que deu o gosto muito singular que é a essência dele. Claro que entretanto sofreu muitos processos de transformação, mas esses só trouxeram ainda mais variedade e alargaram os limites deste universo.

Então, não acham pouco razoável que se cultive uma adoração aos Dealema e Sam The Kid e se deixe outros para trás, sejam os Dupla Consciência ou os Mundo Complexo, apenas porque apostaram em estilos ainda pouco habituais? Toda a gente tem direito a não gostar de um ou outro grupo, porque não sente a música ou não se identifica com a mensagem, mas não censurem uns por quererem deixar a sua marca de um modo peculiar. Não vale a pena acreditar na revolução se depois até na música se é conservador.

Deixo aqui outra citação, para contrastar com a primeira. Nem oito nem oitenta”.

«- Agora o pessoal quer curtir é festas, man!
- Ah é?
- Eh pá, faz sons do género: “Vamos curtir, ei, vamos dançar, ei!”. 'Tás a ver? Assim coisas do género, tipo p'rás mulheres também saltarem, ver as tangas no ar e sutiãs e coisas do género, 'tás a ver?
- 'Tou a ver.
(Valete desliga o telemóvel)
- Tss. Cabrões do carago...»
Diálogo entre Valete eadmirador fictício - Coisas do Género in Serviço Público

segunda-feira, 19 de março de 2007

Abrindo os Horizontes - 2

Tanto ou mais do que falar em abrir os horizontes dentro da cultura hip hop, deve-se falar em abrir os horizontes na música em geral, isto é, não se limitar a ouvir rap, especialmente se se deseja compreendê-lo. O rap tem muito de comum com outros géneros musicais, como o Jazz, o Soul, Funk, Reggae, etc. É como tentar compreender para que serve uma lareira e ignorar a sala e as pessoas que nela se encontram. O rap é um sistema dentro de um sistema, por isso temos que compreender os dois. Deixo aqui um pequeno texto ligado ao tema.

«Throughout hip hop's history, new musical styles and genres have developed that contain rapping. Entire genres, such as rapcore (rock/metal/punk with rapped vocals) and hip house have resulted from the fusion of rap and other styles. All popular music genres with a focus on percussion have contained rapping at some point— be it disco (DJ Hollywood), jazz (Gangstarr), new wave (Blondie), funk (Fatback Band), contemporary R&B (Mary J. Blige), Reggaeton (Daddy Yankee), or even Japanese dance music, such as (Soul'd Out). UK garage music has begun to focus increasingly on rappers in a new subgenre called grime, pioneered and popularized by the MC, Dizzee Rascal. Bhangra, a widely popular style of music from Punjab has been mixed numerous times with reggae and hip-hop music. The popular song of this mix was "mundian to bach ke" or "Beware the boys" by panjabi mc and Jay-Z. Altough mundian to bach ke was allready a song inspired by knight rider, the mixing with Jay-Z popularized the genre further.»

Wikipedia, the Free Encyclopedia

Não se entenda com isto que aconselho as pessoas a experimentarem outros géneros de música apenas para compreenderem melhor o rap. Acho que, por uma questão de cultura (por exemplo, alguém acha que o Buddah (Rui Miguel Abreu) percebe apenas de rap?), todos devemos saber apreciar vários estilos de música.

Em breve a terceira e última parte...

sábado, 10 de março de 2007

CR - A Apresentação

Este é um novo género de tópico que vou iniciar (CR) que têm a ver com o blog em si. Vou tratar de assuntos que digam respeito só ao blog, como responder a questões /sugestões dos leitores. Neste primeiro tópico do género, o assunto é a apresentação. Não a pus mais cedo porque achei que, para cativar visitantes, seria melhor estrear com algo mais interessante. Por isso, esperei até ao décimo tópico e decidi postá-lo agora.

O nome "Cultura de Resistência" surgiu devido a uma pessoa que conheço o usar para falar do espírito crítico que se deve ter ao ver televisão e ler jornais, não imitar as outras pessoas, pensar antes de actuar, resistir.

O CR não foi a minha primeira ideia para ajudar este movimento: tinha pensado num jornal online, ou seja, um site quase exclusivamente dedicado a notícias, comentários de pessoas que tivessem uma boa perspectiva da cultura (nacional e internacional) e também outras coisas que se vê aí noutros sites. No entanto, esta ideia torna-se difícil de pôr em prática, devido à constante actualidade adjacente ao projecto, ainda por cima na minha posição. Então decidi-me por uma ideia menos original, mas que ainda assim se podia tornar única.
O objectivo deste blog não é competir com outros, mas sim descobrir assuntos, sobre os quais eu posso ter já ou não uma opinião formada, para serem postados e comentados pelos leitores, de forma a que se tenha uma ideia das diferentes perspectivas relacionadas com o tópico. Assim, os tipos de tópicos que vão ser incluídos neste blog, para já, são estes:

· Polémica – temas sensíveis e/ou onde há claramente opiniões divergentes, muitas vezes já muito batidos mas que continuam sem esclarecimento;
· Convidado – este tipo de tópico refere-se, obviamente, a um tópico escrito por outra pessoa que não o autor do blog;
· CR – assuntos relacionados com o blog (como é o caso deste), onde vão ser dadas respostas a questões formuladas pelos visitantes, anunciados novos tipos de tópicos, etc.

Existem também actividades que não a postagem dos tópicos, como a “Citação do Mês”, actualização de links, em que algumas secções são especiais (os “Videoclips” e “Videoclips estrangeiros”, que exponhem os links respectivos dos videoclips existentes no YouTube dos anos mais recentes, actualmente 2006/2007). O blog, pelo menos nestes primeiros meses, estará em constante mudança, com novas iniciativas que podem não ter sido aqui especificadas. Aceito e agradeço que me enviem sugestões, correcções e perguntas sobre o CR.

Aviso: quem quiser ver publicidade ao seu site no meu blog pode contactar-me (caso o endereço já faça parte dos links, a decisão será imediata), que eu tentarei pôr o mais rapidamente possível (será mais fácil se enviarem o código de um banner publicitário, por exemplo). Contudo, não aceito que façam publicidade não autorizada no CR. Gostava também de pedir aos leitores que, caso estejam registados no Blogger, usem o vosso “nome de tela”. O CR está aberto a parcerias com outros sites que tenham algo em comum e/ou partilhem dos mesmo interesses (sites sobre hip hop, música, consciência social, poesia, etc.).

Queria deixar também aqui escrever algo muito importante: fico muito grato aos que postaram elogios, mas o que quero não são comentários do tipo “Este blog é muito fixe! Muito bom, muito bom…” mas sim deste tipo: “Relativamente a esse assunto, a minha opinião é…, porque… e também porque…”. O que eu quero são comentários aos assuntos dos meus tópicos, não (apenas) elogios. Nenhum blog, e então neste ainda é mais verdade, é de boa qualidade se, caso seja dada a oportunidade aos leitores de participarem (ou seja, exclui-se blogs sem essas características, exemplo o do Valete), não houver ninguém que participe e responda a questões ou assuntos tratados pelo autor. Por isso, caso queiram elogiar-me pelo meu trabalho aqui, enviem um e-mail para o endereço que se encontra no meu perfil. Caso sejam mais preguiçosos, podem comentar aqui neste tópico (ou seja, comentários do tipo “à parte” podem fazê-lo nos tópicos do tipo CR, de preferência o mais recente).

Outro alerta igualmente pertinente: depois de pensar durante algum tempo, cheguei à conclusão que o melhor a fazer é adoptar a política implícita nalguns fóruns de hip hop quanto ao conteúdo: este blog é aconselhado a pessoas apenas com mais de 13 anos. Apesar de considerar que há crianças com menos idade que poderiam perfeitamente visitar o CR, prefiro seguir esta lei já estipulada noutros projectos online. Não me considero daquelas pessoas que escrevem dez palavrões por linha (pois acho desagradável para o leitor e não só). No entanto, acho que devem ser usados (com prudência) e aceitarei que os leitores os utilizem nos seus comentários (desde que não seja para se insultarem).

Ah, mais uma coisa: para já, vou apenas postar três tópicos por mês. O regime poderá mudar em Dezembro de 2007 (primeiro aniversário do CR).

Comentem e esclareçam!

domingo, 25 de fevereiro de 2007

Além Do Tejo

Esta talvez seja a colectânea mais conhecida (para já) do Alentejo. Editado pela Covil Produções, provavelmente a editora mais representativa desta região de Portugal, o disco contêm 18 faixas, com nomes que já vão sendo conhecidos do público “mais por dentro”: Suarez e Camate (Movimento Clandestino), Praso, Zikler, Blaya, … Daqui vem também o famoso single “Sensação de Alegria”, que passou nas rádios e entrou na primeira compilação da distribuidora SóHipHop e num CD bónus da já inexistente revista Hip Hop Nation (lamentavelmente), o qual foi (ou parece ter sido) bem recebido pela comunidade português de hip hop. Entretanto, e já antes disso (com o álbum “Em O Poder do Verso”, de 2002, e o EP “P.D.S.”, de 2004), o movimento (alentejano, e também do sul) cresceu e multiplicou-se: há apenas cinco meses (Setembro de 2006), Zikler lançou o álbum “Eu Sou Isto” que parece ter tido uma boa aceitação e foi muito comentado, por exemplo, nos fóruns da Internet.

Com toda esta agitação, é caso para perguntar: poderá o que eles fazem ser considerado rap? Não se deduza erradamente a partir da minha pergunta que eu não os considero dotados da capacidade empírica que é preciso para o hip hop, muito pelo contrário, acho que fazem muito bem e têm todo o direito de o fazer. Mas isso sou eu. Os alentejanos não possuem propriamente grandes cidades ou zonas urbanas das quais possam relatar vivências próprias daí, característica muito enraizada no rap. Podem, no entanto, falar de um outro estilo de vida que nós, citadinos, não conhecemos ou não temos uma ideia precisa de como é. Além disso, a atitude também é muito diferente, consequência de uma noção de realidade diferente, mais uma vez, da nossa, citadinos (isto também se aplica, embora em menor escala, ao abismo, umas vezes maior, outras vezes uma frecha apenas, entre o Norte e o Centro (Grandes Lisboa, mais precisamente)

Contudo temos também diversos pontos em comum: falamos das mesmas emoções (sim, porque ser alentejano não significa ser alienígena), de concertos bem sucedidos, festas e por aí fora, os quais também são muito importantes para o hip hop (são os temas mais positivos). Será que a diferença entre o estilo alentejano e o nosso os põe fora dos limites do rap? Como já disse, eu acredito que não, mas isso sou eu.

Ficam aqui uma pequena lista, para terem a noção, de alguns CD’s oriundos do Alentejo e Sul de Portugal:

- Álbum “Em O Poder do Verso” (2002) – Movimento Clandestino
- EP “P.D.S.” (2004) – Projecto de Surra/ editora Covil Produções
- Colectânea “AlemDoTejo” (2005)/ editora Covil Produções
- EP “Cofre Nocturno” (2005) – Praso
- EP “Número 1” (2005) - Blaya
- Colectânea “Rusga” (2005)/ editora Covil Produções
- Álbum “Eu Sou Isto” (2006) – Zikler/ editora Covil Produções

domingo, 18 de fevereiro de 2007

Polémica - Internet e MP3

«Gangster das teclas! Uuuh!!!...»

Sam The Kid - "Ignorância" in Pratica(mente) (2006)

Introdução aos temas polémicos: de vez em quando, sem exagerar, vou abordar os temas mais polémicos (com opiniões mais divergentes) para não acabar como alguns fóruns de hip hop que se vê por aí (isto já tem a ver com este tópico). Espero que as pessoas que postem comentários os façam sem se agredirem verbalmente e respeitando os outros opinantes. Também gostaria que expusessem argumentos e não dissessem apenas que são de tal opinião, ou seja, justifiquem as vossas ideias (estas regras aplicam-se a todos os temas, sejam polémicos ou não).

Para iniciar este tema, deixem-me dizer-vos que já fui um grande viciado em Internet e fóruns de hip hop, apesar de já não me considerar como tal. Nunca descarreguei música com esses programas próprios para essa tarefa, apenas aquela disponível legalmente (ex: no site da Horizontal – secção «Áudio & Vídeo»). É claro que de vez em quando peço ao meu irmão para sacar qualquer cena ou ele mesmo toma a iniciativa.

Suponho que a maioria dos visitantes deste blog frequentam fóruns de hip hop, já que estes foram o meio que escolhi para divulgação do CR. Então posso também supor que lêem os comentários das outras pessoas antes de postarem os vossos (pelo menos na maior parte dos casos). Dois comentários estúpidos de alguém que só diz merda: 1- alguém disse que só os grupos comerciais é que têm sites oficiais; 2- alguém disse que o Barrako 27 é velho demais para ser rapper. Peço desculpa se a pessoa que fez algum dos comentários estava a brincar, mas às vezes é difícil distinguir. Primeiro, acho natural que todos os músicos desejem ter divulgação, o que pode passar por ter um site (já que cada vez mais as pessoas aderem à Internet) e isso não tem nada a ver com ser comercial!!! Segundo, não interessa se está a falar do Barrako 27 ou outro qualquer, isso de ser demasiado velho é uma treta! A não ser em géneros musicais que impliquem cantar (o que não é o caso do rap) não se pode justificar o facto de não se gostar do músico X por causa da idade. Desde que o rapper não comece a gaguejar e que tenha boa dicção todos podem dar bons MC’s. Isto são algumas das merdas que me chateiam nos fóruns de hip hop.

Outro lado mau da Internet são aquelas pessoas que descarregam giga bytes de música e acham isso normal. A minha filosofia é um pouco como a do Valete: compro CDs de música das pequenas empresas e ouço em MP3 a das majors. Além disso, só compro aquilo que gosto e é esse o benefício da música alojada na Net: ouves, se gostares compras, não gostas, não compras. Acredito que os músicos não estão interessados em ser remunerados por pessoas que se enganam no álbum ou que pensavam que era melhor, etc.

Concluindo, não sejam agarrados à Internet, não vale a pena gostar de hip hop se depois nem se olha à volta para observar o mundo. Net é, para mim, um meio para me informar e actualizar sobre o movimento. Claro que também participo em fóruns de hip hop, etc., e não acho mal, desde que não se abuse. Há coisas mais importantes a fazer do que passar a vida em frente do computador. Criem uma lista de tarefas do que têm que fazer na Net e não divaguem muito.

«Só merece a liberdade e a vida quem diariamente tem de a conquistar.»

Goethe

domingo, 4 de fevereiro de 2007

Abrindo os Horizontes - 1

Quem costuma ouvir o “Nação Hip Hop”, na rádio Antena 3, já está habituado a estas críticas. Bem, não são críticas, são mais uns conselhos, já que eu próprio me reconheço parcialmente no tipo de pessoas que o Rui Miguel Abreu critica (não percebo ainda muito de hip hop estrangeiro mas estou a tentar remediar isso).

Vocês, caros leitores, nunca poderão negar que passam muito tempo na Net, ou não visitariam este blog (lol). A Internet está cheia de informação, o que inclui a que é sobre a cultura hip hop. Pode-se encontrar de tudo, mas é claro que os portugueses interessados na matéria têm tendência para o que é produção nacional (e é de louvar!). O problema é ter noção de “ter tendência” ou “ser viciado”. O hip hop apareceu em Portugal por que já tinha aparecido noutras zonas, e não o contrário. Não é estranho ver alguém que conheça todos aqueles grupos que só na Net se houve falar e, no entanto, não saber quem é o Chuck D? E quando falo de hip hop estrangeiro não se entenda hip hop americano, pois há o brasileiro, espanhol (castelhano, galego), inglês, e os menos compreendidos (vejam o tópico de estreia deste blog Dezembro 2006) como francês, alemão, etc.

A situação agrava-se se o visado considera-se «mestre-de-cerimónias» (MC). O Valete indigna-se, e eu talvez também se tivesse mais consciência e sabedoria de estilos doutros países. Eu escrevo letras, mas não me considero MC, porque tenho consciência da minha ignorância relativamente ao exterior de Portugal. As minhas «bases», por muito variadas que possam parecer, não são nada comparando com uma perspectiva mundial. O facto de eu ter consciência disso é positivo pois, tal como estou a fazer, posso remediá-lo. É a chamada “douta ignorância” (isto é a Filosofia de 10º ano a fazer efeito): «Só sei que nada sei» (Sócrates).

Concluindo, não vale a pena ser um expert em hip hop tuga se não se perceber nada das fundações mais importantes deste no resto do mundo e, se te consideras MC, devias apressares-te a alargar os teus horizontes.

Em breve a continuação…

quinta-feira, 25 de janeiro de 2007

Do Ghetto ao Coliseu

Nos anos 70, nos Estados Unidos, e no princípio dos anos 90, em Portugal, o rap foi sempre uma música do ghetto, ligado aos pobres, imigrantes, etc. Estava restrito a esses lugares e foram pessoas de lá que criaram as raízes, pelo menos nesses dois países (e em França também).

Mas agora já não é assim. Nos Estados Unidos o rap cresceu tanto que se tornou das maiores modas alguma vez vistas. Superou o rock e outros géneros, fundiu-se com os mesmos e aderiu ao mainstream. Entretanto expandiu-se para outros países, tomando forma na Alemanha, França, Brasil, etc. Juntamente com ele foi o resto da cultura Hip Hop: breakdance, graffiti, beatbox e a roupa (por muito que queiramos, as calças largas estarão sempre associadas ao Hip Hop). A música e a cultura deixaram de ser desconhecidos do grande público e passaram a fazer parte dos favoritos. Hoje qualquer um abre uma janela e vê putos de calças largas, boné para trás, t-shirts a dar pelos joelhos e camisolas com letras esquisitíssimas. É comum a toda a gente. Quem não viu ainda um boné da marca New York?

O rap (Rhytme and Poetry) começou a passar nas rádios e levou MCs portugueses aos top’s. Pôs betos a abanar as ancas e chavalinhas a dar risinhos em concertos do 50 Cent. Atraiu o dinheiro e consequentemente as editoras, entrou na MTV e fez famoso o gangster rap. Entrou nas FNAC’s e mesmo lojas como a Valentim de Carvalho, que o encaravam com receio, acabaram por admitir ter discos dos Da Weasel nas suas prateleiras. O breakdance conseguiu sobrepor-se (na minha opinião) ao playback e mudou as gerações mais jovens. A fama penetrou no hip hop tão fortemente que já existem centenas de videoclips com limusinas e gajas de biquini.

Agora o rap já NÃO é do ghetto e sim de toda a gente. Ouve-se em todo o lado e são lançados álbuns do género por toda a gente. Pobres ganharam fortuna e apenas os resistentes continuam na sombra ou com um pé em cada lado. Por isso, ninguém me venha dizer que só os que fazem parte de bairros problemáticos é que podem ser MC’s. Toda a gente pode ser MC desde que tenha algo para relatar. A regra de ouro é fala daquilo que viveste. E hoje em dia, não são só as pessoas que vivem no ghetto que têm más experiências. Acreditem, não foi só o Hip Hop que saiu do ghetto nestas últimas décadas.

sábado, 20 de janeiro de 2007

Falsa Moda

Modas... A coisa mais estúpida que alguém alguma vez inventou. Tanto dano causou e voltará a causar, tantas gerações modificou para proveito dos que a criaram, tanto dinheiro foi parar às mãos erradas, tantas massas foram iludidas. Não é irónico como o hip hop, um inimigo desta atitude, tenha sido subitamente chupado de todo o conteúdo e transformado em música de entretenimento para a juventude? Desculpem aqueles que se sentiram atingidos, eu refiro-me a apenas uma área do hip hop, pois sei que ainda há muito e bom que continua por aí a inovar e deixar plateias de boca aberta, entre battles de bairro e concertos no Hard Club. Um enorme obrigado para esses.

Mas acreditem, podíamos estar pior representados a nível nacional e interna­cio­nal. Os Da Weasel e o Boss AC são pessoas que não desgosto, aliás gosto de Boss AC (todos os álbuns, claro que umas músicas mais que outras) e do grupo gosto dos álbuns mais antigos. Isso é uma coisa interessante. Nestes grupos que encontraram a terrível fama e que, por muito que digam que não, se deixaram afectar, os amantes de bom gosto notarão um crescente prazer à medida que voltamos atrás no tempo. Gosto do “RAP – Ritmo, Amor e Palavras” mas mais do “Rimar Contra a Maré” e ainda mais do “Manda Chuva”. Voltando à linha da frente, temos sempre o divino e incensurável Sam The Kid, o senhor Humildade, ainda mais à frente os também divinos Mind Da Gap (apesar de eu pessoalmente achar que no penúltimo disco algumas músicas podiam estar melhores), e vão crescendo outros de outra subárea do hip hop como Expensive Soul (de que gosto) e SP & Wilson (não fazem muito o meu estilo, mas respeito-os). Pensando que não, ao olhar para a histeria da chavalada nos concertos do Boss AC, podíamos estar MUITO PIOR representados. Cada um que imagine com a sua cabeça.

O que não deixa de é de ser uma moda. Uma falsa moda. Se se perguntar a um puto qualquer entre os oito e os doze anos quantos grupos de hip hop conhece, só são dois: Da Weasel e Boss AC. E isto representa uma cultura distorcida sustentada por muuuuitos outros. Não será uma injustiça? Quer dizer, concerteza que o Boss AC faz parte da old school, suportou isto quando era mais difícil e participou em dois temas do Rapública. Mas não foi o único! Não podemos culpar alguém que não fez mais do que trabalhar para receber a fama, mas podemos culpar o sistema que a deu. Sim, porque como disse no tópico anterior, isto das modas não são as crianças e os jovens que as criam, pelo menos agora, mas sim a indústria e a comunicação social (televisão, rádios, editoras,...). Senão porque é que o Boss AC só atingiu o seu auge quando foi incluído na colectânea da telenovela da TVI?

Por isso é que, quando algum amigo meu pouco apaixonado pelo hip hop goza comigo quanto à ironia presente na situação, eu só respondo: “É uma falsa moda.”

sábado, 6 de janeiro de 2007

Geração TV e outros assuntos...

Não criei este tópico porque é a minha faixa preferida da colectânea “Poesia Urbana” (OK, está bem, também gosto da do Valete) mas sim porque veio de um outro assunto em que estive a matutar e que considero ambos importantes. Pois bem, vou começar pelo original (sempre!).

COMECEI A GOSTAR DE MÚSICA TARDE E A MÁS HORAS, achava que nunca seria uma coisa assim tão maravilhosa como faziam querer. Comecei com a música que o meu irmão ouvia, e, pela primeira vez na história de alguém que se deixa guiar pelos outros, foi isso que me salvou.

Não sei quantos de vocês começaram a ouvir hip hop antes de 2003/2004 (antes de entrar na moda) mas se não, arrependam-se! Eu comecei por volta de 2001, talvez... («...2001, tipo houve um ‘bum!’/nessa altura o rap já era um música comum» - Xeg in “Remisturas vol.1”) às vezes os melhores momentos são os mais difíceis de localizar no tempo. Gosto muito de relembrar esse tempo (que na realidade está tão perto, só esta moda horrível é que o torna longuínquo), por isso imagino o que será para os MC’s da old school reviver os seus anos noventa. Não havia hip hop nas telenovelas, aliás (bons tempos) havia menos telenovelas nessa altura, acho eu (desmintam-me se estou errado, mas também concordo que mesmo assim em demasia). Os primeiro sons que ouvi (confissão: eram copiados porque não se vendia hip hop em Braga, só havia Vadeca e pouco mais) foram Entre(tanto), do Sam The Kid, o primeiro do Guardiões de Subsolo, a colectânea “2º Piso” do Cruzfader e dos Terrorismo Sónico, “A Verdade” e o “Sem Cerimónias” dos Mind Da Gap, e o grande Boss AC em “Manda Chuva”, um pouco de Micro mais tarde (lembro-me de ouvir pela primeira vez o “No Topo Do Mundo”), etc. Valete, MatoZoo e outros só mais tarde. Entretanto comecei a escrever as minhas rimas (tão parvas), em que me inspirei particularmente no primeiro álbum do Gabriel, o Pensador. O primeiro álbum que comprei foi aquele que menos gostei (sugestão do meu irmão): “Podes Fugir Mas Não Te Podes Esconder” dos Da Weasel com o tema tão passado “Tás Na Boa” (foi mesmo azar, pois também é o álbum deles que menos gosto). Foi uma compra tardia e só obrigado pela oferta de um checkdisc. De qualquer forma o meu irmão continuou a arranjar cópias de álbuns de hip hop (sempre teve menos escrúpulos no que toca a isso), pois já estávamos apanhados na sua teia (agora apanhados, só se for na Net).

Comprei Kacetado e Dupla Consciência e em breve chegamos a 2004 com o “Conhecimento” de Xeg e outros tantos (esse ano foi um pico em termos de variedade), comprei Bomberjack (Bomba Relógio), um bocado a arriscar as minhas poupanças, mas por causa disso tornei-me um grande admirador dele. Neste processo de crescimento e busca de informação só me lamento de me ter descurado dos estrangeiros, um fracasso de que me tento redimir agora. No entanto fui adquirindo gostos nacionais, mesmo nos mais desconhecidos com Beto (que, por acaso, disse Sam The Kid no dia 21 de Dezembro, em directo da Antena 3, está a preparar um álbum). O facto de não conhecer mais ninguém em Braga que gostasse de hip hop não me causava nenhum transtorno. Até chegar o “Baza Baza” (a crítica fica para o próximo tópico).

A “evolução” do Boss AC fez a indústria abrir os olhos para o potencial do género e libertou a euforia pindérica nas criancinhas que começavam a sustentar um no­vo estilo de vida, uma nova imagem, a Geração TV. Tenho consciência de que são pes­soas da minha idade as mais activistas deste movimento ignorante e com valores dis­­­tor­cidos, o que não faz com que me queira incluir nela. Felizmente devo aos meus pais um agradecimento por me terem educado de modo a nunca ver telenovelas nem ser agarrado à televisão. Quando tinha menos de seis anos, e se calhar mesmo depois, já não sei, via a Rua Sésamo (Popas, Monstro das Bolachas, o qual me fazia fome, etc.) falada por 2caras, e só no final da escola primária surgiu os Power Rangers, Dragon Ball, etc. A explicação para o precipício que se impõe entre mim e os parolos da minha idade que vêem Morangos Com Açúcar é que, apesar de termos nascido numa época mais amena, fomos atingidos com uma monstruosidade de programas idiotas quando éramos crian­ças. E qual a fase da vida em que mais somos influenciados pela TV? Nem mais!

É incrível como conheço raparigas que admitem com um sorriso na boca que vêem todas as telenovelas de determinado canal ou nacionalidade. Ficar agarrado à TV o dia inteiro faz lembrar um filme de ficção científica: presos a uma cadeira, ador­me­ci­dos, enquanto o nosso cérebro, ligado a máquinas, é repetidamente violado com men­sa­gens e valores que os raptores nos querem fazer passar. Mais tarde, se essas pessoas se libertarem dos fios e saltarem da cadeia, vão lamentar terem-se deixado “seduzir” (será a palavra certa?) por ilusões perversas. Pior que os filhos, são os pais, que no filme es­ta­riam numa sala ao lado a observar a operação por uma janela espelhada, com um sorriso amarelo e um indiferença estúpida, como que a dizer: “Ela pediu-me tanto...”. Que se há-de fazer? A chave está na educação e mentalidade dos pais.

O primeiro assunto foi inspirado no facto de eu recentemente ter comprado a colectânea “Mixtape Files” do DJ Bomberjack e a reedição dos álbuns “Sobre(tudo)” e “Entre(tanto)” do Sam The Kid.

«Putos modernos nem sequer em Pai Natal acreditam»

2caras (GproFam) – “Geração TV” in Poesia Urbana

quinta-feira, 28 de dezembro de 2006

Egotrip

«Uma das razões principais para muitas pessoas não gostarem de hip hop, é não perceberem porque é que muitos de nós (MC’s) estamos sempre a dizer que somos melhores que os outros, que os outros são piores do que nós, ou que estamos sempre chateados com o mundo. Eu consigo perceber esse julgamento de outsider. É válido. Mas quem respira esta cultura sabe que este comportamento sempre fez e sempre fará parte da nossa música. Há quem lhe chame “Egotrip”.»

Sam The Kid - comentário à música "Ignorância" in Pratica(mente) (2006)

Pois é. Toda a gente conhece. Toda a gente sabe o que é. Mas toda a gente sabe quando o usar? Não me parece. Depois de este excerto que pus aqui, o Sam The Kid fala daquele que se limitam a usar e abusar desta característica dos rappers. Como disse o D-Mars ao Rui Meireles numa entrevista ao H2tuga: «A auto-afirmação também é uma maneira de o MC se exprimir, é apenas isso, por eu dizer que sou o melhor MC do mundo não quer dizer que o seja realmente, mas tenho a necessidade de te dizer isso só para te chocar.» O egotrip deve ser usado, eu acho, mas moderadamente. Muitos não conhecem o significado desta última palavra. O MC não se está a armar quando fala num estilo egocêntrico, nem pode ser considerado como insultos baratos. «Chocar» é a palavra ideal. O MC quer cativar a atenção e fazer tremer o ouvinte, fazê-lo sentir na pele a sua revolta, a fúria derivada da sua relação com o mundo.

Mas o egotrip não é a função principal do MC. A crítica que é feita aqui é directa e dirigida ao ouvinte, enquanto a intervenção que se sobressai no hip hop tem um carácter muito mais abrengente. O egotrip é o rei das battles, logo está conectado ao improviso. Qualquer MC que esteja naqueles dias maus, em que não se consegue concentrar, dá a si mesmo o alívio de descarregar algum raiva da cabeça para o papel. É um instinto. Contudo todos devem ter em mente que egotrip não é inovar, é um desabafo. O egotrip não aborda temas como a pobreza, o racismo ou a hipocrisia (a não ser que seja algo do género «és um falso!»). O egotrip não fala de terceiros, a não ser que directamente relacionados com o ouvinte (“a tua mãe tem vergonha das tuas letras”). O egotrip destina-se apenas exclusivamente a «chocar» e a provocar o ouvinte.

Com isto (e leiam bem antes de criticarem) não pretendo dizer que o egotrip é uma coisa negativa, mas antes que algo de que não devemos abusar nem abdicar e que é um comportamento natural (corrosivo) de um MC para com aqueles que o ouvem. Tem como objectivo fazê-lo sentir inferior, culpado e fascinado com o autor das letras.

«Um grande MC não é aquele que deixa o público saltitante e disperso/ é aquele que deixa o público estupefacto e boquiaberto»

Bónus – “A Diferença” in Bomba Relógio (2002)

quarta-feira, 27 de dezembro de 2006

O D. Sebastião do Rap

Ele chegou! Ajoelhem-se e ouçam o que tem para dizer! Pois é, Sam The Kid está cá mesmo para apresentar o tão esperado álbum “Pratica(mente)”. Qual sonho tornado realidade, apareceu à pouco tempo nas lojas pela primeira vez. Porque, apesar de Samuel Mira ter dito numa entrevista à TSF, há três anos (vejam a entrevista no H2tuga) “eu não quero ser o porta-voz do hip hop” a verdade é que é, como replicou o locutor da rádio, ou pelo um dos. É daquelas ironias da vida, já Albert Einstein, o cérebro da Física, disse uma vez: “Para castigar o meu desprezo pela autoridade, o destino fez de mim uma autoridade”.

Oiçam o “Poetas do Karoeke” e vejam o videoclip no YouTube. Aqui fica o link:

http://www.youtube.com/watch?v=UFCsbzp4LH0

domingo, 24 de dezembro de 2006

Ce réel oder falsh?

Quando ouvimos música portuguesa, todos (como quem diz) sabemos qual a mensagem que o vocalista está a querer transmitir. É a nossa língua materna, vivemos no ambiente ideal (claro!) para perceber qualquer mensagem passada por um português, esteja ela camuflada em metáforas e outras expressões ou não. A probabilidade de essas metáforas e expressões fazerem parte da nossa vida diária é alta, logo não temos qualquer problemas em decompô-la e procurar as palavrinhas certas no nosso vocabulário. Mas alguém de fora pode não conseguir fazê-lo.

Ainda está bem que consigamos compreender também a mensagem do hip hop americano ou inglês, pois, já que a grande maioria do público ligado ao hip hop tem acima de 15 anos, essa(s) língua(s) não nos atrapalha(m). Agora, nem toda a gente sabe falar francês ou alemão, e mesmo a nossa vizinha Espanha tem várias línguas consoante as regiões. Assim, até podemos desenvicilharmo-nos quanto ao castelhano e ao galego, mas não conseguimos traduzir um simples “olá” em basco. Como iremos escolher, de entre o imenso mercado alemão ou francês, aqueles com as quais estamos de acordo, ou aqueles que fazem relatos da sua vida que nos possam interessar. Aliás, porque iremos nós comprar um álbum de alguém que até transmite mensagens com as quais concordamos, se não conseguimos percebê-las. Teremos que aprender todas as línguas relevantes da Europa, ou somos obrigados a cingirmo-nos pelo nosso hip hop “caseiro”?

Este tema surgiu-me depois de comprar o último álbum dos Less du Neuf, “Tant Qu’il En Est Temps”. A dúvida não está em saber se eles acabem um concerto com um público constituído principalmente por crianças a dizer algo como “Bebam, tomem drogas, façam sexo!” (refiro-me ao 50 Cent) ou não, mas antes se poderei escolher eu próprio os grupos que me interessam, sem ter que me guiar por outros ou simplesmente pelo flow. Comentem e esclareçam, obrigado!