sábado, 7 de abril de 2007

Mania dos Melhores

Algo aborrecido em alguns dos fóruns de hip hop, os quais reflectem a mentalidade de alguns ouvintes de hip hop português, é a constante procura do melhor MC ou DJ neste aspecto ou naquele. Isso é entediante, não só porque se criam trinta tópicos com essas merdas mas também porque nunca se chega a uma conclusão. A conclusão de não haver conclusão (não se baralhem) é que é muito difícil chegar a esta.

A característica mais bizarra é que, muito estupidamente (estou a perder os poucos leitores deste blog), os criadores dos tópicos não pedem “diz-me os 30 melhores MC’s de Portugal” mas sim “diz-me qual achas que é o Melhor MC de Portugal”! Isto leva a deduzir que o causador desta idiotice tinha a suposição, muito ingénua (e arrogante), de que é possível reduzir uma cultura já muito grande e diversificada, que foi sendo construída ao longo de mais de uma década, a uma única personagem, que representaria o movimento de rap português na perfeição. O pressuposto demonstra a incapacidade destas pessoas de perceberem que o rap (aliás, muitos generalizam para o hip hop) tem imensas facetas e que já é muito difícil reduzi-lo a 30 pessoas, quanto mais a uma única! Vá lá, que alguns especificam qual a habilidade que preferem que se realce (flow, mensagem, …), mas mesmo assim…

Compreendam que dá para chegar ao melhor, ou pelo menos aos cinco melhores, mas isso é o que é feito nos concursos desse tipo, e são eleitos júris qualificados para tal, agora perguntem-se porquê... ou consideram-se sábios incontestáveis na matéria?! Resumindo, cada um pode fazer o que lhe dá na tola nos fóruns (desde que não infrinja as regras), mas depois não se espantem se descerem uns pontinhos na consideração dos outros utilizadores...

Neste texto, falo dos melhores, e não dos favoritos, já que há uma diferença, ainda que relativa. Favoritos, toda a gente tem, mas para isso é necessário algo mais que simplesmente os skills habitualmente julgados. Quando começamos a falar de favoritos, falamos de gostos, e gostos são gostos.

NOTA: Peço desculpa aos leitores porque este tópico estava anexado a outro (que irá mais tarde ser postado), mas eu à última da hora decidi separá-los, por isso ficou um bocado pequeno, além de que já devia ter sido postado ontem. No entanto, acredito que este assunto, só por si, já justifica um lugar aqui no blog, pois há muitos lados por onde ver o assunto. Reflictam nele e comentem (e esclareçam)!

quarta-feira, 28 de março de 2007

Abrindo os Horizontes - 3

«E não é menos Hip Hop só porque falas de mulheres»

Boss AC - Hip Hop (Sou Eu e És Tu) in RAP - Ritmo, Amor e Palavras (2005)


Terceira e última parte deste sermão sobre diversidade musical: desta vez, dentro do próprio hip hop português. Vou-vos dar uns nomes, que certamente muitos de vocês já conhecem: Dealema, Sam The Kid, Mundo Complexo, Valete, Regula, Mind Da Gap, Dupla Consciência, Lancelot, Micro, Adamastor e Suarez. Para quem conhecer um pouco melhor esta cultura, pode estabelecer aqui algumas ligações: Dealema e Mind Da Gap, Sam The Kid e Regula, Valete e Adamastor. Os outros não têm uma relação directa entre eles (não quer dizer que nunca se tenham juntado para fazer algum trabalho, mas antes que o estilo é diferente). Esta “salada” (penso que foi o Buddah que lhe chamou assim) é uma virtude para o hip hop tuga, significa que não se copiam todos uns aos outros e que há muita criatividade envolvida.

Mas há quem despreze este valor positivo. Chamo-lhes conservadores porque acham que o hip hop devia estar sujeito a uma quantidade muito maior de regras do que está na realidade. Os conservadores do tipo fanático acham que o hip hop devia falar estritamente de consciência social, enquanto que os do tipo leigo preferem os temas amorosos, sobre mulheres e festas. Nem oito nem oitenta. Chamo-lhes ignorantes porque é isso que fazem: ignoram partes da história desta cultura e esquecem algo muito importante, que é o espírito africano. Ele (ainda) persiste e está entranhado no hip hop e está relacionado com um ritmo muito especial. Isso, combinado à situação primitiva de muitos imigrantes nos anos 70, é que deu o gosto muito singular que é a essência dele. Claro que entretanto sofreu muitos processos de transformação, mas esses só trouxeram ainda mais variedade e alargaram os limites deste universo.

Então, não acham pouco razoável que se cultive uma adoração aos Dealema e Sam The Kid e se deixe outros para trás, sejam os Dupla Consciência ou os Mundo Complexo, apenas porque apostaram em estilos ainda pouco habituais? Toda a gente tem direito a não gostar de um ou outro grupo, porque não sente a música ou não se identifica com a mensagem, mas não censurem uns por quererem deixar a sua marca de um modo peculiar. Não vale a pena acreditar na revolução se depois até na música se é conservador.

Deixo aqui outra citação, para contrastar com a primeira. Nem oito nem oitenta”.

«- Agora o pessoal quer curtir é festas, man!
- Ah é?
- Eh pá, faz sons do género: “Vamos curtir, ei, vamos dançar, ei!”. 'Tás a ver? Assim coisas do género, tipo p'rás mulheres também saltarem, ver as tangas no ar e sutiãs e coisas do género, 'tás a ver?
- 'Tou a ver.
(Valete desliga o telemóvel)
- Tss. Cabrões do carago...»
Diálogo entre Valete eadmirador fictício - Coisas do Género in Serviço Público

segunda-feira, 19 de março de 2007

Abrindo os Horizontes - 2

Tanto ou mais do que falar em abrir os horizontes dentro da cultura hip hop, deve-se falar em abrir os horizontes na música em geral, isto é, não se limitar a ouvir rap, especialmente se se deseja compreendê-lo. O rap tem muito de comum com outros géneros musicais, como o Jazz, o Soul, Funk, Reggae, etc. É como tentar compreender para que serve uma lareira e ignorar a sala e as pessoas que nela se encontram. O rap é um sistema dentro de um sistema, por isso temos que compreender os dois. Deixo aqui um pequeno texto ligado ao tema.

«Throughout hip hop's history, new musical styles and genres have developed that contain rapping. Entire genres, such as rapcore (rock/metal/punk with rapped vocals) and hip house have resulted from the fusion of rap and other styles. All popular music genres with a focus on percussion have contained rapping at some point— be it disco (DJ Hollywood), jazz (Gangstarr), new wave (Blondie), funk (Fatback Band), contemporary R&B (Mary J. Blige), Reggaeton (Daddy Yankee), or even Japanese dance music, such as (Soul'd Out). UK garage music has begun to focus increasingly on rappers in a new subgenre called grime, pioneered and popularized by the MC, Dizzee Rascal. Bhangra, a widely popular style of music from Punjab has been mixed numerous times with reggae and hip-hop music. The popular song of this mix was "mundian to bach ke" or "Beware the boys" by panjabi mc and Jay-Z. Altough mundian to bach ke was allready a song inspired by knight rider, the mixing with Jay-Z popularized the genre further.»

Wikipedia, the Free Encyclopedia

Não se entenda com isto que aconselho as pessoas a experimentarem outros géneros de música apenas para compreenderem melhor o rap. Acho que, por uma questão de cultura (por exemplo, alguém acha que o Buddah (Rui Miguel Abreu) percebe apenas de rap?), todos devemos saber apreciar vários estilos de música.

Em breve a terceira e última parte...

sábado, 10 de março de 2007

CR - A Apresentação

Este é um novo género de tópico que vou iniciar (CR) que têm a ver com o blog em si. Vou tratar de assuntos que digam respeito só ao blog, como responder a questões /sugestões dos leitores. Neste primeiro tópico do género, o assunto é a apresentação. Não a pus mais cedo porque achei que, para cativar visitantes, seria melhor estrear com algo mais interessante. Por isso, esperei até ao décimo tópico e decidi postá-lo agora.

O nome "Cultura de Resistência" surgiu devido a uma pessoa que conheço o usar para falar do espírito crítico que se deve ter ao ver televisão e ler jornais, não imitar as outras pessoas, pensar antes de actuar, resistir.

O CR não foi a minha primeira ideia para ajudar este movimento: tinha pensado num jornal online, ou seja, um site quase exclusivamente dedicado a notícias, comentários de pessoas que tivessem uma boa perspectiva da cultura (nacional e internacional) e também outras coisas que se vê aí noutros sites. No entanto, esta ideia torna-se difícil de pôr em prática, devido à constante actualidade adjacente ao projecto, ainda por cima na minha posição. Então decidi-me por uma ideia menos original, mas que ainda assim se podia tornar única.
O objectivo deste blog não é competir com outros, mas sim descobrir assuntos, sobre os quais eu posso ter já ou não uma opinião formada, para serem postados e comentados pelos leitores, de forma a que se tenha uma ideia das diferentes perspectivas relacionadas com o tópico. Assim, os tipos de tópicos que vão ser incluídos neste blog, para já, são estes:

· Polémica – temas sensíveis e/ou onde há claramente opiniões divergentes, muitas vezes já muito batidos mas que continuam sem esclarecimento;
· Convidado – este tipo de tópico refere-se, obviamente, a um tópico escrito por outra pessoa que não o autor do blog;
· CR – assuntos relacionados com o blog (como é o caso deste), onde vão ser dadas respostas a questões formuladas pelos visitantes, anunciados novos tipos de tópicos, etc.

Existem também actividades que não a postagem dos tópicos, como a “Citação do Mês”, actualização de links, em que algumas secções são especiais (os “Videoclips” e “Videoclips estrangeiros”, que exponhem os links respectivos dos videoclips existentes no YouTube dos anos mais recentes, actualmente 2006/2007). O blog, pelo menos nestes primeiros meses, estará em constante mudança, com novas iniciativas que podem não ter sido aqui especificadas. Aceito e agradeço que me enviem sugestões, correcções e perguntas sobre o CR.

Aviso: quem quiser ver publicidade ao seu site no meu blog pode contactar-me (caso o endereço já faça parte dos links, a decisão será imediata), que eu tentarei pôr o mais rapidamente possível (será mais fácil se enviarem o código de um banner publicitário, por exemplo). Contudo, não aceito que façam publicidade não autorizada no CR. Gostava também de pedir aos leitores que, caso estejam registados no Blogger, usem o vosso “nome de tela”. O CR está aberto a parcerias com outros sites que tenham algo em comum e/ou partilhem dos mesmo interesses (sites sobre hip hop, música, consciência social, poesia, etc.).

Queria deixar também aqui escrever algo muito importante: fico muito grato aos que postaram elogios, mas o que quero não são comentários do tipo “Este blog é muito fixe! Muito bom, muito bom…” mas sim deste tipo: “Relativamente a esse assunto, a minha opinião é…, porque… e também porque…”. O que eu quero são comentários aos assuntos dos meus tópicos, não (apenas) elogios. Nenhum blog, e então neste ainda é mais verdade, é de boa qualidade se, caso seja dada a oportunidade aos leitores de participarem (ou seja, exclui-se blogs sem essas características, exemplo o do Valete), não houver ninguém que participe e responda a questões ou assuntos tratados pelo autor. Por isso, caso queiram elogiar-me pelo meu trabalho aqui, enviem um e-mail para o endereço que se encontra no meu perfil. Caso sejam mais preguiçosos, podem comentar aqui neste tópico (ou seja, comentários do tipo “à parte” podem fazê-lo nos tópicos do tipo CR, de preferência o mais recente).

Outro alerta igualmente pertinente: depois de pensar durante algum tempo, cheguei à conclusão que o melhor a fazer é adoptar a política implícita nalguns fóruns de hip hop quanto ao conteúdo: este blog é aconselhado a pessoas apenas com mais de 13 anos. Apesar de considerar que há crianças com menos idade que poderiam perfeitamente visitar o CR, prefiro seguir esta lei já estipulada noutros projectos online. Não me considero daquelas pessoas que escrevem dez palavrões por linha (pois acho desagradável para o leitor e não só). No entanto, acho que devem ser usados (com prudência) e aceitarei que os leitores os utilizem nos seus comentários (desde que não seja para se insultarem).

Ah, mais uma coisa: para já, vou apenas postar três tópicos por mês. O regime poderá mudar em Dezembro de 2007 (primeiro aniversário do CR).

Comentem e esclareçam!

domingo, 25 de fevereiro de 2007

Além Do Tejo

Esta talvez seja a colectânea mais conhecida (para já) do Alentejo. Editado pela Covil Produções, provavelmente a editora mais representativa desta região de Portugal, o disco contêm 18 faixas, com nomes que já vão sendo conhecidos do público “mais por dentro”: Suarez e Camate (Movimento Clandestino), Praso, Zikler, Blaya, … Daqui vem também o famoso single “Sensação de Alegria”, que passou nas rádios e entrou na primeira compilação da distribuidora SóHipHop e num CD bónus da já inexistente revista Hip Hop Nation (lamentavelmente), o qual foi (ou parece ter sido) bem recebido pela comunidade português de hip hop. Entretanto, e já antes disso (com o álbum “Em O Poder do Verso”, de 2002, e o EP “P.D.S.”, de 2004), o movimento (alentejano, e também do sul) cresceu e multiplicou-se: há apenas cinco meses (Setembro de 2006), Zikler lançou o álbum “Eu Sou Isto” que parece ter tido uma boa aceitação e foi muito comentado, por exemplo, nos fóruns da Internet.

Com toda esta agitação, é caso para perguntar: poderá o que eles fazem ser considerado rap? Não se deduza erradamente a partir da minha pergunta que eu não os considero dotados da capacidade empírica que é preciso para o hip hop, muito pelo contrário, acho que fazem muito bem e têm todo o direito de o fazer. Mas isso sou eu. Os alentejanos não possuem propriamente grandes cidades ou zonas urbanas das quais possam relatar vivências próprias daí, característica muito enraizada no rap. Podem, no entanto, falar de um outro estilo de vida que nós, citadinos, não conhecemos ou não temos uma ideia precisa de como é. Além disso, a atitude também é muito diferente, consequência de uma noção de realidade diferente, mais uma vez, da nossa, citadinos (isto também se aplica, embora em menor escala, ao abismo, umas vezes maior, outras vezes uma frecha apenas, entre o Norte e o Centro (Grandes Lisboa, mais precisamente)

Contudo temos também diversos pontos em comum: falamos das mesmas emoções (sim, porque ser alentejano não significa ser alienígena), de concertos bem sucedidos, festas e por aí fora, os quais também são muito importantes para o hip hop (são os temas mais positivos). Será que a diferença entre o estilo alentejano e o nosso os põe fora dos limites do rap? Como já disse, eu acredito que não, mas isso sou eu.

Ficam aqui uma pequena lista, para terem a noção, de alguns CD’s oriundos do Alentejo e Sul de Portugal:

- Álbum “Em O Poder do Verso” (2002) – Movimento Clandestino
- EP “P.D.S.” (2004) – Projecto de Surra/ editora Covil Produções
- Colectânea “AlemDoTejo” (2005)/ editora Covil Produções
- EP “Cofre Nocturno” (2005) – Praso
- EP “Número 1” (2005) - Blaya
- Colectânea “Rusga” (2005)/ editora Covil Produções
- Álbum “Eu Sou Isto” (2006) – Zikler/ editora Covil Produções

domingo, 18 de fevereiro de 2007

Polémica - Internet e MP3

«Gangster das teclas! Uuuh!!!...»

Sam The Kid - "Ignorância" in Pratica(mente) (2006)

Introdução aos temas polémicos: de vez em quando, sem exagerar, vou abordar os temas mais polémicos (com opiniões mais divergentes) para não acabar como alguns fóruns de hip hop que se vê por aí (isto já tem a ver com este tópico). Espero que as pessoas que postem comentários os façam sem se agredirem verbalmente e respeitando os outros opinantes. Também gostaria que expusessem argumentos e não dissessem apenas que são de tal opinião, ou seja, justifiquem as vossas ideias (estas regras aplicam-se a todos os temas, sejam polémicos ou não).

Para iniciar este tema, deixem-me dizer-vos que já fui um grande viciado em Internet e fóruns de hip hop, apesar de já não me considerar como tal. Nunca descarreguei música com esses programas próprios para essa tarefa, apenas aquela disponível legalmente (ex: no site da Horizontal – secção «Áudio & Vídeo»). É claro que de vez em quando peço ao meu irmão para sacar qualquer cena ou ele mesmo toma a iniciativa.

Suponho que a maioria dos visitantes deste blog frequentam fóruns de hip hop, já que estes foram o meio que escolhi para divulgação do CR. Então posso também supor que lêem os comentários das outras pessoas antes de postarem os vossos (pelo menos na maior parte dos casos). Dois comentários estúpidos de alguém que só diz merda: 1- alguém disse que só os grupos comerciais é que têm sites oficiais; 2- alguém disse que o Barrako 27 é velho demais para ser rapper. Peço desculpa se a pessoa que fez algum dos comentários estava a brincar, mas às vezes é difícil distinguir. Primeiro, acho natural que todos os músicos desejem ter divulgação, o que pode passar por ter um site (já que cada vez mais as pessoas aderem à Internet) e isso não tem nada a ver com ser comercial!!! Segundo, não interessa se está a falar do Barrako 27 ou outro qualquer, isso de ser demasiado velho é uma treta! A não ser em géneros musicais que impliquem cantar (o que não é o caso do rap) não se pode justificar o facto de não se gostar do músico X por causa da idade. Desde que o rapper não comece a gaguejar e que tenha boa dicção todos podem dar bons MC’s. Isto são algumas das merdas que me chateiam nos fóruns de hip hop.

Outro lado mau da Internet são aquelas pessoas que descarregam giga bytes de música e acham isso normal. A minha filosofia é um pouco como a do Valete: compro CDs de música das pequenas empresas e ouço em MP3 a das majors. Além disso, só compro aquilo que gosto e é esse o benefício da música alojada na Net: ouves, se gostares compras, não gostas, não compras. Acredito que os músicos não estão interessados em ser remunerados por pessoas que se enganam no álbum ou que pensavam que era melhor, etc.

Concluindo, não sejam agarrados à Internet, não vale a pena gostar de hip hop se depois nem se olha à volta para observar o mundo. Net é, para mim, um meio para me informar e actualizar sobre o movimento. Claro que também participo em fóruns de hip hop, etc., e não acho mal, desde que não se abuse. Há coisas mais importantes a fazer do que passar a vida em frente do computador. Criem uma lista de tarefas do que têm que fazer na Net e não divaguem muito.

«Só merece a liberdade e a vida quem diariamente tem de a conquistar.»

Goethe