sábado, 20 de janeiro de 2007

Falsa Moda

Modas... A coisa mais estúpida que alguém alguma vez inventou. Tanto dano causou e voltará a causar, tantas gerações modificou para proveito dos que a criaram, tanto dinheiro foi parar às mãos erradas, tantas massas foram iludidas. Não é irónico como o hip hop, um inimigo desta atitude, tenha sido subitamente chupado de todo o conteúdo e transformado em música de entretenimento para a juventude? Desculpem aqueles que se sentiram atingidos, eu refiro-me a apenas uma área do hip hop, pois sei que ainda há muito e bom que continua por aí a inovar e deixar plateias de boca aberta, entre battles de bairro e concertos no Hard Club. Um enorme obrigado para esses.

Mas acreditem, podíamos estar pior representados a nível nacional e interna­cio­nal. Os Da Weasel e o Boss AC são pessoas que não desgosto, aliás gosto de Boss AC (todos os álbuns, claro que umas músicas mais que outras) e do grupo gosto dos álbuns mais antigos. Isso é uma coisa interessante. Nestes grupos que encontraram a terrível fama e que, por muito que digam que não, se deixaram afectar, os amantes de bom gosto notarão um crescente prazer à medida que voltamos atrás no tempo. Gosto do “RAP – Ritmo, Amor e Palavras” mas mais do “Rimar Contra a Maré” e ainda mais do “Manda Chuva”. Voltando à linha da frente, temos sempre o divino e incensurável Sam The Kid, o senhor Humildade, ainda mais à frente os também divinos Mind Da Gap (apesar de eu pessoalmente achar que no penúltimo disco algumas músicas podiam estar melhores), e vão crescendo outros de outra subárea do hip hop como Expensive Soul (de que gosto) e SP & Wilson (não fazem muito o meu estilo, mas respeito-os). Pensando que não, ao olhar para a histeria da chavalada nos concertos do Boss AC, podíamos estar MUITO PIOR representados. Cada um que imagine com a sua cabeça.

O que não deixa de é de ser uma moda. Uma falsa moda. Se se perguntar a um puto qualquer entre os oito e os doze anos quantos grupos de hip hop conhece, só são dois: Da Weasel e Boss AC. E isto representa uma cultura distorcida sustentada por muuuuitos outros. Não será uma injustiça? Quer dizer, concerteza que o Boss AC faz parte da old school, suportou isto quando era mais difícil e participou em dois temas do Rapública. Mas não foi o único! Não podemos culpar alguém que não fez mais do que trabalhar para receber a fama, mas podemos culpar o sistema que a deu. Sim, porque como disse no tópico anterior, isto das modas não são as crianças e os jovens que as criam, pelo menos agora, mas sim a indústria e a comunicação social (televisão, rádios, editoras,...). Senão porque é que o Boss AC só atingiu o seu auge quando foi incluído na colectânea da telenovela da TVI?

Por isso é que, quando algum amigo meu pouco apaixonado pelo hip hop goza comigo quanto à ironia presente na situação, eu só respondo: “É uma falsa moda.”

sábado, 6 de janeiro de 2007

Geração TV e outros assuntos...

Não criei este tópico porque é a minha faixa preferida da colectânea “Poesia Urbana” (OK, está bem, também gosto da do Valete) mas sim porque veio de um outro assunto em que estive a matutar e que considero ambos importantes. Pois bem, vou começar pelo original (sempre!).

COMECEI A GOSTAR DE MÚSICA TARDE E A MÁS HORAS, achava que nunca seria uma coisa assim tão maravilhosa como faziam querer. Comecei com a música que o meu irmão ouvia, e, pela primeira vez na história de alguém que se deixa guiar pelos outros, foi isso que me salvou.

Não sei quantos de vocês começaram a ouvir hip hop antes de 2003/2004 (antes de entrar na moda) mas se não, arrependam-se! Eu comecei por volta de 2001, talvez... («...2001, tipo houve um ‘bum!’/nessa altura o rap já era um música comum» - Xeg in “Remisturas vol.1”) às vezes os melhores momentos são os mais difíceis de localizar no tempo. Gosto muito de relembrar esse tempo (que na realidade está tão perto, só esta moda horrível é que o torna longuínquo), por isso imagino o que será para os MC’s da old school reviver os seus anos noventa. Não havia hip hop nas telenovelas, aliás (bons tempos) havia menos telenovelas nessa altura, acho eu (desmintam-me se estou errado, mas também concordo que mesmo assim em demasia). Os primeiro sons que ouvi (confissão: eram copiados porque não se vendia hip hop em Braga, só havia Vadeca e pouco mais) foram Entre(tanto), do Sam The Kid, o primeiro do Guardiões de Subsolo, a colectânea “2º Piso” do Cruzfader e dos Terrorismo Sónico, “A Verdade” e o “Sem Cerimónias” dos Mind Da Gap, e o grande Boss AC em “Manda Chuva”, um pouco de Micro mais tarde (lembro-me de ouvir pela primeira vez o “No Topo Do Mundo”), etc. Valete, MatoZoo e outros só mais tarde. Entretanto comecei a escrever as minhas rimas (tão parvas), em que me inspirei particularmente no primeiro álbum do Gabriel, o Pensador. O primeiro álbum que comprei foi aquele que menos gostei (sugestão do meu irmão): “Podes Fugir Mas Não Te Podes Esconder” dos Da Weasel com o tema tão passado “Tás Na Boa” (foi mesmo azar, pois também é o álbum deles que menos gosto). Foi uma compra tardia e só obrigado pela oferta de um checkdisc. De qualquer forma o meu irmão continuou a arranjar cópias de álbuns de hip hop (sempre teve menos escrúpulos no que toca a isso), pois já estávamos apanhados na sua teia (agora apanhados, só se for na Net).

Comprei Kacetado e Dupla Consciência e em breve chegamos a 2004 com o “Conhecimento” de Xeg e outros tantos (esse ano foi um pico em termos de variedade), comprei Bomberjack (Bomba Relógio), um bocado a arriscar as minhas poupanças, mas por causa disso tornei-me um grande admirador dele. Neste processo de crescimento e busca de informação só me lamento de me ter descurado dos estrangeiros, um fracasso de que me tento redimir agora. No entanto fui adquirindo gostos nacionais, mesmo nos mais desconhecidos com Beto (que, por acaso, disse Sam The Kid no dia 21 de Dezembro, em directo da Antena 3, está a preparar um álbum). O facto de não conhecer mais ninguém em Braga que gostasse de hip hop não me causava nenhum transtorno. Até chegar o “Baza Baza” (a crítica fica para o próximo tópico).

A “evolução” do Boss AC fez a indústria abrir os olhos para o potencial do género e libertou a euforia pindérica nas criancinhas que começavam a sustentar um no­vo estilo de vida, uma nova imagem, a Geração TV. Tenho consciência de que são pes­soas da minha idade as mais activistas deste movimento ignorante e com valores dis­­­tor­cidos, o que não faz com que me queira incluir nela. Felizmente devo aos meus pais um agradecimento por me terem educado de modo a nunca ver telenovelas nem ser agarrado à televisão. Quando tinha menos de seis anos, e se calhar mesmo depois, já não sei, via a Rua Sésamo (Popas, Monstro das Bolachas, o qual me fazia fome, etc.) falada por 2caras, e só no final da escola primária surgiu os Power Rangers, Dragon Ball, etc. A explicação para o precipício que se impõe entre mim e os parolos da minha idade que vêem Morangos Com Açúcar é que, apesar de termos nascido numa época mais amena, fomos atingidos com uma monstruosidade de programas idiotas quando éramos crian­ças. E qual a fase da vida em que mais somos influenciados pela TV? Nem mais!

É incrível como conheço raparigas que admitem com um sorriso na boca que vêem todas as telenovelas de determinado canal ou nacionalidade. Ficar agarrado à TV o dia inteiro faz lembrar um filme de ficção científica: presos a uma cadeira, ador­me­ci­dos, enquanto o nosso cérebro, ligado a máquinas, é repetidamente violado com men­sa­gens e valores que os raptores nos querem fazer passar. Mais tarde, se essas pessoas se libertarem dos fios e saltarem da cadeia, vão lamentar terem-se deixado “seduzir” (será a palavra certa?) por ilusões perversas. Pior que os filhos, são os pais, que no filme es­ta­riam numa sala ao lado a observar a operação por uma janela espelhada, com um sorriso amarelo e um indiferença estúpida, como que a dizer: “Ela pediu-me tanto...”. Que se há-de fazer? A chave está na educação e mentalidade dos pais.

O primeiro assunto foi inspirado no facto de eu recentemente ter comprado a colectânea “Mixtape Files” do DJ Bomberjack e a reedição dos álbuns “Sobre(tudo)” e “Entre(tanto)” do Sam The Kid.

«Putos modernos nem sequer em Pai Natal acreditam»

2caras (GproFam) – “Geração TV” in Poesia Urbana

quinta-feira, 28 de dezembro de 2006

Egotrip

«Uma das razões principais para muitas pessoas não gostarem de hip hop, é não perceberem porque é que muitos de nós (MC’s) estamos sempre a dizer que somos melhores que os outros, que os outros são piores do que nós, ou que estamos sempre chateados com o mundo. Eu consigo perceber esse julgamento de outsider. É válido. Mas quem respira esta cultura sabe que este comportamento sempre fez e sempre fará parte da nossa música. Há quem lhe chame “Egotrip”.»

Sam The Kid - comentário à música "Ignorância" in Pratica(mente) (2006)

Pois é. Toda a gente conhece. Toda a gente sabe o que é. Mas toda a gente sabe quando o usar? Não me parece. Depois de este excerto que pus aqui, o Sam The Kid fala daquele que se limitam a usar e abusar desta característica dos rappers. Como disse o D-Mars ao Rui Meireles numa entrevista ao H2tuga: «A auto-afirmação também é uma maneira de o MC se exprimir, é apenas isso, por eu dizer que sou o melhor MC do mundo não quer dizer que o seja realmente, mas tenho a necessidade de te dizer isso só para te chocar.» O egotrip deve ser usado, eu acho, mas moderadamente. Muitos não conhecem o significado desta última palavra. O MC não se está a armar quando fala num estilo egocêntrico, nem pode ser considerado como insultos baratos. «Chocar» é a palavra ideal. O MC quer cativar a atenção e fazer tremer o ouvinte, fazê-lo sentir na pele a sua revolta, a fúria derivada da sua relação com o mundo.

Mas o egotrip não é a função principal do MC. A crítica que é feita aqui é directa e dirigida ao ouvinte, enquanto a intervenção que se sobressai no hip hop tem um carácter muito mais abrengente. O egotrip é o rei das battles, logo está conectado ao improviso. Qualquer MC que esteja naqueles dias maus, em que não se consegue concentrar, dá a si mesmo o alívio de descarregar algum raiva da cabeça para o papel. É um instinto. Contudo todos devem ter em mente que egotrip não é inovar, é um desabafo. O egotrip não aborda temas como a pobreza, o racismo ou a hipocrisia (a não ser que seja algo do género «és um falso!»). O egotrip não fala de terceiros, a não ser que directamente relacionados com o ouvinte (“a tua mãe tem vergonha das tuas letras”). O egotrip destina-se apenas exclusivamente a «chocar» e a provocar o ouvinte.

Com isto (e leiam bem antes de criticarem) não pretendo dizer que o egotrip é uma coisa negativa, mas antes que algo de que não devemos abusar nem abdicar e que é um comportamento natural (corrosivo) de um MC para com aqueles que o ouvem. Tem como objectivo fazê-lo sentir inferior, culpado e fascinado com o autor das letras.

«Um grande MC não é aquele que deixa o público saltitante e disperso/ é aquele que deixa o público estupefacto e boquiaberto»

Bónus – “A Diferença” in Bomba Relógio (2002)

quarta-feira, 27 de dezembro de 2006

O D. Sebastião do Rap

Ele chegou! Ajoelhem-se e ouçam o que tem para dizer! Pois é, Sam The Kid está cá mesmo para apresentar o tão esperado álbum “Pratica(mente)”. Qual sonho tornado realidade, apareceu à pouco tempo nas lojas pela primeira vez. Porque, apesar de Samuel Mira ter dito numa entrevista à TSF, há três anos (vejam a entrevista no H2tuga) “eu não quero ser o porta-voz do hip hop” a verdade é que é, como replicou o locutor da rádio, ou pelo um dos. É daquelas ironias da vida, já Albert Einstein, o cérebro da Física, disse uma vez: “Para castigar o meu desprezo pela autoridade, o destino fez de mim uma autoridade”.

Oiçam o “Poetas do Karoeke” e vejam o videoclip no YouTube. Aqui fica o link:

http://www.youtube.com/watch?v=UFCsbzp4LH0

domingo, 24 de dezembro de 2006

Ce réel oder falsh?

Quando ouvimos música portuguesa, todos (como quem diz) sabemos qual a mensagem que o vocalista está a querer transmitir. É a nossa língua materna, vivemos no ambiente ideal (claro!) para perceber qualquer mensagem passada por um português, esteja ela camuflada em metáforas e outras expressões ou não. A probabilidade de essas metáforas e expressões fazerem parte da nossa vida diária é alta, logo não temos qualquer problemas em decompô-la e procurar as palavrinhas certas no nosso vocabulário. Mas alguém de fora pode não conseguir fazê-lo.

Ainda está bem que consigamos compreender também a mensagem do hip hop americano ou inglês, pois, já que a grande maioria do público ligado ao hip hop tem acima de 15 anos, essa(s) língua(s) não nos atrapalha(m). Agora, nem toda a gente sabe falar francês ou alemão, e mesmo a nossa vizinha Espanha tem várias línguas consoante as regiões. Assim, até podemos desenvicilharmo-nos quanto ao castelhano e ao galego, mas não conseguimos traduzir um simples “olá” em basco. Como iremos escolher, de entre o imenso mercado alemão ou francês, aqueles com as quais estamos de acordo, ou aqueles que fazem relatos da sua vida que nos possam interessar. Aliás, porque iremos nós comprar um álbum de alguém que até transmite mensagens com as quais concordamos, se não conseguimos percebê-las. Teremos que aprender todas as línguas relevantes da Europa, ou somos obrigados a cingirmo-nos pelo nosso hip hop “caseiro”?

Este tema surgiu-me depois de comprar o último álbum dos Less du Neuf, “Tant Qu’il En Est Temps”. A dúvida não está em saber se eles acabem um concerto com um público constituído principalmente por crianças a dizer algo como “Bebam, tomem drogas, façam sexo!” (refiro-me ao 50 Cent) ou não, mas antes se poderei escolher eu próprio os grupos que me interessam, sem ter que me guiar por outros ou simplesmente pelo flow. Comentem e esclareçam, obrigado!